O cheiro do alho no azeite quente veio antes de tudo — esse estalo gordo quando os pedaços tocam a frigideira de ferro, o vapor que sobe e aperta os olhos.
Tinha comprado jiló na feira na segunda, com aquela casca ainda firme que cede um pouco quando aperta com o polegar. A baiana da barraca do fundo disse que o lote veio de Caruaru e que estava no ponto certo — verde mas sem o amargo tão cru que paralisa a língua. Refoguei com alho, cebola roxa fatiada fina, e deixei quieto mais tempo do que costuma ser necessário porque o fogo estava alto demais no começo. Queimou uma parte, mas só a borda exterior do jiló ficou mais escura, e isso trouxe um amargor tostado diferente do amargor verde de sempre — seco, fundo, quase defumado.
Na primeira mordida: uma resistência que cede rápido, a polpa que esfarela entre os dentes sem se desmanchar. O azeite tinha entrado no interior do jiló durante o refogado longo, e cada pedaço carregava o fundo do alho junto com o amargor defumado da borda queimada. Na garganta ficou um resíduo que amacia devagar, como folha de louro que permanece mesmo depois de tirar a panela do fogo.
Servi com arroz feito no mesmo dia, sem tempero extra — o jiló não pede companhia muito falante.
Pensei na vó enquanto lavava a frigideira. Ela nunca jogou nada fora. Uma borda queimada virava tempero da próxima camada.
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