O alho entrou no azeite frio e começou devagar, antes do chiar. Deixei assim, fogo baixo, esperando o cheiro abrir — aquele momento em que ele para de ser cru e vira outra coisa, mais redondo, menos agressivo.
Comprei chuchu na feira ontem cedo, com a Dona Graça, que disse que o dela vinha da roça de um cunhado no Agreste. Peguei três, firmes, sem manchas escuras. Quis cebolinha também, mas tinham acabado. Levei só o coentro que sobrou da semana passada, um pouco murchinho, mas ainda com cheiro próprio.
O erro foi o sal. Coloquei cedo demais, quando o chuchu ainda estava largando água, e o caldo ficou pesado, salgado além do que eu queria. Acrescentei mais água quente e um punhado de fubá para engrossar de volta — não era o que eu pretendia, mas o resultado ficou diferente do costume: mais denso, quase um creme ralo, com uma textura que reveste a colher antes de escorrer. Surpreendeu.
Na primeira mordida, o chuchu já estava cedendo, não esfarelando — aquela consistência que amacia sem desmanchar, que você sente na língua antes de mastigar. O azeite havia se misturado com a água do legume e virado um caldo leve, levemente gorduroso, com o coentro amassado por baixo, quase dissolvido. O sabor de fundo era suave, adocicado do jeito que vegetal adoça quando cresceu com chuva boa. Nenhuma acidez, nenhuma aspereza.
O resíduo na boca era limpo. Nada que ficasse pesando depois.
Vovó punha chuchu em tudo. Dizia que ele pegava o gosto do que estava perto, que era um legume de companhia. Na panela de ferro dela, lá no interior, com carne de sol e muita cebola, ele virava outra coisa inteiramente. Aqui, sem carne, sem nada além do que eu tinha na geladeira e do que a Dona Graça trouxe do Agreste, ele ficou ele mesmo — discreto, honesto, suficiente para o almoço de quarta-feira a dois.
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