Acordei com o cheiro de café coado atravessando a cozinha, mas hoje ele disputava espaço com outro aroma que há tempos não visitava esta casa: o fermento vivo, acordando dentro da tigela coberta que deixei na bancada ontem à noite. Quando levantei o pano de prato, a massa tinha dobrado de tamanho, cheia de bolhas pequenas na superfície, como se respirasse.
Enfiei os dedos na massa pela primeira vez em meses. Estava macia, levemente pegajosa, e ao dobrar sobre si mesma fazia um som quase inaudível — um suspiro úmido. Minha avó costumava dizer que massa de pão tem personalidade: "Cada dia ela acorda diferente, filha. Você precisa conversar com ela." Na época, eu achava que era só jeito de falar, mas hoje entendi. A massa de hoje estava preguiçosa, pesada, pedindo mais tempo.
Deixei descansar mais trinta minutos enquanto preparava a assadeira. Quando voltei, ela tinha relaxado, ficado mais elástica. Ao modelar os pães, deixei um deles meio torto —