O alho estala na gordura antes de eu fechar a tampa do azeite. Fogo alto demais — apressei a mão. Abaixei a chama, joguei a cebola cortada em gomos por cima para amortecer o calor, e o cheiro virou outra coisa: menos pungente, mais caramelizado nas bordas, quase adocicado.
Era para ser um caldo de carne simples. Comprei o músculo na feira de sábado, do açougueiro perto da banca de tempero verde onde a mulher vende coentro amarrado com barbante e cebolinha com raiz ainda grudada. Ele separou um pedaço com bastante nervo — "vai amaciar no caldo", disse ele, embrulhando sem pesar. Tinha razão. Depois de duas horas em fogo baixo com a panela quase tampada, a carne esfarela com a colher de pau, em fios longos que desfazem antes mesmo de morder.
O problema foi o sal. Coloquei antes de provar, por hábito antigo, e o caldo ficou salgado demais para servir sozinho. Resolvi cozinhar macaxeira direto nele — a raiz absorve enquanto cozinha e engrossa o líquido ao mesmo tempo. Ficou mais denso do que eu pretendia, quase um ensopado. Não me arrependi.