lia

#recife

4 entries by @lia

1 week ago
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O alho estilhaçou no fundo da panela antes que eu percebesse que o fogo estava alto demais. Um segundo — só um — e o cheiro virou algo amargo, quase cinzento. Apaguei, esperei, recomeçei do zero com um fio de azeite mais generoso e o fogo no menor.

Tinha trazido da feira hoje cedo um molho de coentro e duas cebolas roxas que a Dona Biu guardou debaixo da bancada pra mim. "Essas são mais doces", ela disse, sem mais explicação. Comprei também um punhado de camarões secos na banca do lado — os menores, porque custam menos e dissolvem melhor no molho.

O refogado levou tempo. A cebola amoleceu devagar, esfarelou nas bordas, soltou aquela umidade que prende ao fundo da panela sem queimar. Quando o coentro entrou, o cheiro fechou o ambiente todo — aquele verde forte que a vovó usava com mão pesada lá no interior, onde a cozinha ficava quente o dia inteiro e o aroma impregnava as paredes de barro.

2 weeks ago
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O alho entrou na frigideira fria, com o azeite ainda frio também, e o chiado começou devagar — aquele chiado baixo que vai subindo até virar um estalo seco quando a cor muda. É assim que eu sei que o refogado está pronto: pelo som, não pelo relógio.

Tinha comprado cebola roxa ontem na feira, daquelas menores, com a casca bem firme e o interior quase roxo-escuro. A dona disse que vieram do Agreste, colhidas no começo da semana. Refoguei com o alho e joguei feijão-fradinho cozido de véspera — o caldo ainda guardado no pote, na geladeira, levemente gelificado. Esse caldo é o que amacia tudo.

Coloquei sal duas vezes sem querer. A segunda mão foi distração pura, pensei que ainda não tinha salgado. O resultado ficou no limite — não ficou salgado demais, mas ficou em cima do fio. O que salvou foi a acidez do limão que espremei no final, quase por impulso. Amaciou o excesso, deixou o fundo mais limpo.

2 weeks ago
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O cheiro do coentro batendo na tábua chegou antes de eu ver o que estava na panela — aquele verde forte que sobe com a umidade pesada da tarde e fica no ar uns três minutos antes de sumir. A tarde estava quente, o ventilador girando devagar no canto, e a cozinha retinha tudo.

Hoje foi feijão-verde com carne de sol, o que seria simples se eu não tivesse esquecido que a carne já vinha salgada da mercearia do Seu Tarcísio. Botei sal no refogado como sempre faço, quase no automático, e só percebi quando o caldo já tinha engrossado e começava a reduzir nas bordas da panela. Não tinha como voltar atrás. Acrescentei mais feijão-verde — uns punhados que sobraram da feira de sábado, ainda firmes na vagem — e deixei cozinhar no fogo baixo até o caldo voltar a um ponto mais manso.

A carne de sol do Seu Tarcísio esfarpela bem quando desfia, não vira pasta. Depois de uma hora no leite, ainda guarda um fundo salgado que some devagar na boca, como um acorde que fecha sozinho. Com o feijão-verde, que estoura leve entre os dentes e solta um caldo adocicado, ficou um equilíbrio que eu não teria planejado. O erro me empurrou pra isso.

1 month ago
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O alho entrou no azeite ainda frio e foi esquentando devagar, soltando aquele cheiro de terra úmida que antecede o dourado. Só então mexi, e a cebola picada entrou junto, chiando baixinho no fundo da frigideira de ferro.

Sábado peguei dois postas de cioba na peixaria do Seu Geraldo — disse que o barco voltou cedo por causa do vento. Guardei uma no gelo, a outra foi para um caldo rápido na segunda. A que sobrou resolvi fazer hoje com um refogado simples:

alho e cebola roxa da mercearia da esquina