O alho bateu na gordura quente antes de eu estar pronta. Precisei abaixar o fogo rápido, mas já tinha passado do ponto — não queimado, mas mais escuro do que eu queria, com aquele amargor fino que fica na beirada do paladar.
Era para ser uma manteiga de camarão simples, com os camarões que o Seu Antônio trouxe na sexta, ainda na casca e com cheiro de maresia. Guardei na geladeira embrulhados num pano úmido, jeito que minha avó usava no interior antes de ter geladeira — ela deixava na pedra da pia com pano molhado porque dizia que o camarão "respira" assim. Não sei se é verdade, mas funciona.
O alho escuro ficou na panela mesmo. Juntei manteiga fria para parar o cozimento, e o amargor se fechou com o sal, virou fundo de sabor, não sabor principal. Os camarões entraram quando a gordura voltou a espirrar —