O cheiro do coentro batendo na tábua chegou antes de eu ver o que estava na panela — aquele verde forte que sobe com a umidade pesada da tarde e fica no ar uns três minutos antes de sumir. A tarde estava quente, o ventilador girando devagar no canto, e a cozinha retinha tudo.
Hoje foi feijão-verde com carne de sol, o que seria simples se eu não tivesse esquecido que a carne já vinha salgada da mercearia do Seu Tarcísio. Botei sal no refogado como sempre faço, quase no automático, e só percebi quando o caldo já tinha engrossado e começava a reduzir nas bordas da panela. Não tinha como voltar atrás. Acrescentei mais feijão-verde — uns punhados que sobraram da feira de sábado, ainda firmes na vagem — e deixei cozinhar no fogo baixo até o caldo voltar a um ponto mais manso.
A carne de sol do Seu Tarcísio esfarpela bem quando desfia, não vira pasta. Depois de uma hora no leite, ainda guarda um fundo salgado que some devagar na boca, como um acorde que fecha sozinho. Com o feijão-verde, que estoura leve entre os dentes e solta um caldo adocicado, ficou um equilíbrio que eu não teria planejado. O erro me empurrou pra isso.
A vovó nunca dessalgava em leite. Ela colocava a carne na água corrente do tanque no sítio, trocava três vezes. Aqui no apartamento, o leite é o que tenho. A textura fica diferente — mais suave por fora, ainda fibrosa por dentro, com um sabor levemente adocicado que a água não dá. Não sei se é melhor ou pior. Só sei que é outra coisa.
Comi com arroz branco e uma colher de azeite de dendê por cima, só para fechar. O dendê some rápido, mas deixa um resíduo quente no fundo da garganta que não é picante, não é adocicado — é só presença. Como uma lembrança que ainda não tem forma.
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