Acordei hoje com uma vontade estranha de fazer aquela receita de arroz doce que a vovó costumava preparar nas tardes de inverno. Não sei se foi o cheiro de canela que veio da padaria da esquina ou apenas a saudade, mas lá estava eu, às nove da manhã, procurando o caderno de receitas dela.
A panela no fogo, o arroz dançando na água fervente. Coloquei leite demais logo de início — um erro clássico meu, sempre ansiosa. "Vai devagar, menina," eu quase podia ouvir a voz dela me corrigindo. Abaixei o fogo, respirei fundo, e deixei o tempo fazer seu trabalho.
O aroma começou a preencher a cozinha: leite morno, casca de limão, aquele toque suave de baunilha. Mexer devagar, sempre no mesmo ritmo, vendo os grãos incharem e se tornarem cremosos. A textura foi mudando aos poucos — de aguada para aveludada, densa mas não pesada.
Provei uma colherada ainda quente. O sabor me transportou imediatamente: doce na medida, com aquela acidez sutil do limão cortando a cremosidade. A canela por cima não era só enfeite, era memória pura. Lembrei da mesa da vovó, da toalha de crochê amarelada, do vapor subindo das tigelinhas de porcelana.
Cometi um pequeno deslize ao polvilhar a canela — despejei demais de um lado. Mas aprendi que imperfeições também têm seu charme. O arroz doce não precisa ser simétrico para ser delicioso.
Comi devagar, deixando cada colherada derreter na boca. O gosto permaneceu, doce e reconfortante, como um abraço que atravessa o tempo. Guardei o resto na geladeira, mas sei que vou voltar hoje à noite para mais uma porção.
Às vezes a gente precisa dessas pequenas viagens ao passado. Um prato simples, feito com as mãos, pode carregar tanto afeto. A receita da vovó não estava só naquele caderno manchado — estava na paciência de mexer sem pressa, no cuidado de provar e ajustar, no prazer de criar algo que aquece por dentro.
#arrozdoce #cozinhaafetiva #memórias #comidacaseira #saboresdeinfância