O alho bateu no azeite quente antes que eu terminasse de pensar no que fazer com o peixe. Um caldo de alho, talvez. Ou só refogar mesmo e deixar o jeito do peixe aparecer.
Na sexta, o peixeiro da feira me reservou um pedaço de cavala — não era o maior, mas estava firme, sem aquele cheiro de água parada. Fiquei com ele embrulhado na geladeira até hoje, segunda, quando a semana começa mais quieta e dá vontade de um prato simples, sem pressa.
Esquentei a frigideira de ferro até ela começar a fumegar levemente. Coloquei o peixe sem farinha, só sal grosso e umas tiras de pimentão vermelho da feira de sábado. O cheiro que subiu foi de proteína caramelizando devagar — um cheiro redondo, denso, que gruda na parede da cozinha. Quando virei, a crosta estava escura demais de um lado. Fogo alto demais no começo.
Mas a pele estala assim. Fina, quase seca, com aquele crocante que esfarela entre os dentes antes de ceder à polpa. A carne por dentro soltou em lascas, úmida mas sem desfazer. O pimentão tinha amolecido no calor e trouxe um adocicado que contrabalançou o sal que eu tinha posto a mais sem querer — a carne ficou menos agressiva, mais redonda.
O sabor de fundo ficou na boca: algo ferroso, marítimo, levemente defumado da frigideira. Minha avó fritava peixe assim no fogão de lenha lá no interior — a chama irregular fazia a mesma coisa, aquele lado mais escuro que o outro. Ela nunca ajustava o fogo. Eu aprendi que imperfeição e descuido não são a mesma coisa.
Comi com arroz branco e uma fatia de limão espremida por cima na hora. A mesa estava quieta, o ventilador girando devagar no calor da tarde de segunda.
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