O alho entrou no azeite ainda frio e foi esquentando devagar, soltando aquele cheiro de terra úmida que antecede o dourado. Só então mexi, e a cebola picada entrou junto, chiando baixinho no fundo da frigideira de ferro.
Sábado peguei dois postas de cioba na peixaria do Seu Geraldo — disse que o barco voltou cedo por causa do vento. Guardei uma no gelo, a outra foi para um caldo rápido na segunda. A que sobrou resolvi fazer hoje com um refogado simples:
- alho e cebola roxa da mercearia da esquina
- tomate que começava a amolecer
- coentro que a dona Fátima me passou pela cerca ainda molhado
O erro foi o fogo alto. Deixei a frigideira quente demais, e a casca do peixe grudou. Puxei com cuidado, mas o centro ainda estava rosado. Baixei o fogo, tampei com a tampa da panela grande — que não encaixa direito — e deixei terminar no vapor. A textura mudou: menos firme, quase se desprendendo em lascas finas, como o peixe que minha avó cozinhava junto com feijão de corda no fogão a lenha. Não era o que eu planejava, mas tinha uma maciez que eu não teria forçado de outro jeito.
Na boca, primeiro o sal, que coloquei cedo demais — ficou pontudo, na frente de tudo. Depois o tomate, que reduziu demais e virou um molho escuro; a acidez ficou curta, só um rastro. O peixe esfarelava fácil, desfazendo no centro onde o calor chegou por último. O resíduo ficou no coentro: um amargo suave, vegetal, que durou mais do que o sal.
Comi com arroz branco e o que sobrou do molho. Não precisou de mais nada. Sobrou uma posta — cobri e deixei na geladeira. Amanhã vejo se rende marmita.
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