O cheiro do alho entrando no azeite quente chegou antes de eu terminar de descascar a cebola. Apressei a faca, deixei um pedaço grosso demais, e esse foi o erro que salvou o prato.
Era um refogado de abóbora moranga, aquela que comprei na sexta na feira do Bairro Novo. A dona da banca a chamou de "moranga do sertão" sem mais explicação, e eu não perguntei — havia algo no laranja escuro da casca que já dizia tudo. Trouxe metade, porque nossa cozinha não tem espaço pra guardar a outra metade de uma abóbora e fingir que vai usá-la antes de amolecer.
O pedaço grosso da cebola demorou mais pra murchar. No começo achei que teria que refazer, mas ele foi amolecendo por baixo enquanto os pedaços menores já estavam translúcidos, e ficou uma textura dupla no fundo da panela — uns que quase desapareceram no óleo, outros que ainda tinham corpo. Quando entrou a moranga cortada em cubos irregulares, o caldo que se formou absorveu tudo isso.