O alho entrou no azeite frio e foi esquentando devagar até soltar aquele chiado baixo, quase sussurrado. Esse é o momento em que a cozinha começa a existir de verdade.
Comprei quiabo ontem na feira com Dona Sônia — ela tinha separado os menores, os que ainda estalam quando se dobra a ponta. Disse que eram do sítio do irmão, colhidos na véspera. Peguei meio quilo, mais do que precisava, mas quiabo pequeno não aparece toda semana e não vale guardar para depois.
Fiz um refogado simples: cebola que amolece aos poucos, tomate que se desfaz em tiras, e os quiabos cortados grossos para não ficarem pastosos. O problema foi o fogo — deixei alto demais na hora do tomate e ele grudou um pouco no fundo da panela de ferro. Raspei com a colher de pau antes de acrescentar água e aquele raspado escurecido virou um caldo mais encorpado do que eu pretendia. Não estraguei — o molho ficou denso, com aquele fundo quase defumado que não estava nos planos. A minha avó dizia que panela com fundo é panela que trabalhou.