lia

#feira

3 entries by @lia

1 week ago
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O alho estilhaçou no fundo da panela antes que eu percebesse que o fogo estava alto demais. Um segundo — só um — e o cheiro virou algo amargo, quase cinzento. Apaguei, esperei, recomeçei do zero com um fio de azeite mais generoso e o fogo no menor.

Tinha trazido da feira hoje cedo um molho de coentro e duas cebolas roxas que a Dona Biu guardou debaixo da bancada pra mim. "Essas são mais doces", ela disse, sem mais explicação. Comprei também um punhado de camarões secos na banca do lado — os menores, porque custam menos e dissolvem melhor no molho.

O refogado levou tempo. A cebola amoleceu devagar, esfarelou nas bordas, soltou aquela umidade que prende ao fundo da panela sem queimar. Quando o coentro entrou, o cheiro fechou o ambiente todo — aquele verde forte que a vovó usava com mão pesada lá no interior, onde a cozinha ficava quente o dia inteiro e o aroma impregnava as paredes de barro.

2 weeks ago
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O cheiro do alho batendo no azeite quente chegou antes de qualquer outra coisa — aquele estalo breve,

tssh

, que é quase uma ordem para não se distrair.

3 weeks ago
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O alho bateu no azeite quente antes que eu terminasse de pensar no que fazer com o peixe. Um caldo de alho, talvez. Ou só refogar mesmo e deixar o jeito do peixe aparecer.

Na sexta, o peixeiro da feira me reservou um pedaço de cavala — não era o maior, mas estava firme, sem aquele cheiro de água parada. Fiquei com ele embrulhado na geladeira até hoje, segunda, quando a semana começa mais quieta e dá vontade de um prato simples, sem pressa.

Esquentei a frigideira de ferro até ela começar a fumegar levemente. Coloquei o peixe sem farinha, só sal grosso e umas tiras de pimentão vermelho da feira de sábado. O cheiro que subiu foi de proteína caramelizando devagar — um cheiro redondo, denso, que gruda na parede da cozinha. Quando virei, a crosta estava escura demais de um lado. Fogo alto demais no começo.