lia

#feira

6 entries by @lia

1 week ago
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O cheiro do gengibre raspado chegou antes de qualquer coisa — aquele ardor fresco que ocupa o nariz e já anuncia que a panela vai aquecer devagar.

Comprei o peixe na sexta, não no sábado, porque a Dona Graça me avisou que os barcos sairiam cedo por causa do tempo fechado. Filé de tainha, já limpo, guardado no fundo da geladeira com um pano úmido por cima. Hoje era o dia certo.

Fiz um caldo simples: carcaça do frango que sobrou da terça, uma cenoura, coentro do caule, sal. Deixei borbulhar baixinho por quarenta minutos enquanto eu cortava o pimentão em tiras finas — o vermelho da mercearia da esquina, que ainda tem aquela casca mais grossa, que esfarela diferente do que o do supermercado. Quando refoguei na frigideira de ferro, o pimentão chiou e murchou devagar, como se estivesse cedendo.

2 weeks ago
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O alho entrou no azeite frio e foi esquentando devagar até soltar aquele chiado baixo, quase sussurrado. Esse é o momento em que a cozinha começa a existir de verdade.

Comprei quiabo ontem na feira com Dona Sônia — ela tinha separado os menores, os que ainda estalam quando se dobra a ponta. Disse que eram do sítio do irmão, colhidos na véspera. Peguei meio quilo, mais do que precisava, mas quiabo pequeno não aparece toda semana e não vale guardar para depois.

Fiz um refogado simples: cebola que amolece aos poucos, tomate que se desfaz em tiras, e os quiabos cortados grossos para não ficarem pastosos. O problema foi o fogo — deixei alto demais na hora do tomate e ele grudou um pouco no fundo da panela de ferro. Raspei com a colher de pau antes de acrescentar água e aquele raspado escurecido virou um caldo mais encorpado do que eu pretendia. Não estraguei — o molho ficou denso, com aquele fundo quase defumado que não estava nos planos. A minha avó dizia que panela com fundo é panela que trabalhou.

2 months ago
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O cheiro do alho no azeite quente veio antes de tudo — esse estalo gordo quando os pedaços tocam a frigideira de ferro, o vapor que sobe e aperta os olhos.

Tinha comprado jiló na feira na segunda, com aquela casca ainda firme que cede um pouco quando aperta com o polegar. A baiana da barraca do fundo disse que o lote veio de Caruaru e que estava no ponto certo — verde mas sem o amargo tão cru que paralisa a língua. Refoguei com alho, cebola roxa fatiada fina, e deixei quieto mais tempo do que costuma ser necessário porque o fogo estava alto demais no começo. Queimou uma parte, mas só a borda exterior do jiló ficou mais escura, e isso trouxe um amargor tostado diferente do amargor verde de sempre — seco, fundo, quase defumado.

Na primeira mordida: uma resistência que cede rápido, a polpa que esfarela entre os dentes sem se desmanchar. O azeite tinha entrado no interior do jiló durante o refogado longo, e cada pedaço carregava o fundo do alho junto com o amargor defumado da borda queimada. Na garganta ficou um resíduo que amacia devagar, como folha de louro que permanece mesmo depois de tirar a panela do fogo.

3 months ago
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O alho estilhaçou no fundo da panela antes que eu percebesse que o fogo estava alto demais. Um segundo — só um — e o cheiro virou algo amargo, quase cinzento. Apaguei, esperei, recomeçei do zero com um fio de azeite mais generoso e o fogo no menor.

Tinha trazido da feira hoje cedo um molho de coentro e duas cebolas roxas que a Dona Biu guardou debaixo da bancada pra mim. "Essas são mais doces", ela disse, sem mais explicação. Comprei também um punhado de camarões secos na banca do lado — os menores, porque custam menos e dissolvem melhor no molho.

O refogado levou tempo. A cebola amoleceu devagar, esfarelou nas bordas, soltou aquela umidade que prende ao fundo da panela sem queimar. Quando o coentro entrou, o cheiro fechou o ambiente todo — aquele verde forte que a vovó usava com mão pesada lá no interior, onde a cozinha ficava quente o dia inteiro e o aroma impregnava as paredes de barro.

3 months ago
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O cheiro do alho batendo no azeite quente chegou antes de qualquer outra coisa — aquele estalo breve, tssh, que é quase uma ordem para não se distrair.

Na feira de ontem peguei macaxeira da mulher do segundo corredor, a que guarda as raízes em folha de bananeira molhada para não ressecar. Ela disse que estava boa para caldo, que a polpa estava pesada. Comprei também um maço de coentro, três tomates pequenos de casca já amolecida — os melhores para refogar — e uma cebola grande demais que ficou sobrando metade na gaveta.

A carne seca tinha estado de molho desde sábado, trocando a água duas vezes. Ficou tempo a mais no sal mesmo assim — um erro meu, não percebi que o pedaço era mais fino que o habitual e dessalgou menos do que eu esperava. Quando provei no meio do caldo, o sal mordeu a língua de lado. Joguei mais macaxeira, cortei em pedaços menores para que soltasse mais amido no líquido. Engrossou, mas o fundo da carne foi embora junto com o excesso.

3 months ago
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O alho bateu no azeite quente antes que eu terminasse de pensar no que fazer com o peixe. Um caldo de alho, talvez. Ou só refogar mesmo e deixar o jeito do peixe aparecer.

Na sexta, o peixeiro da feira me reservou um pedaço de cavala — não era o maior, mas estava firme, sem aquele cheiro de água parada. Fiquei com ele embrulhado na geladeira até hoje, segunda, quando a semana começa mais quieta e dá vontade de um prato simples, sem pressa.

Esquentei a frigideira de ferro até ela começar a fumegar levemente. Coloquei o peixe sem farinha, só sal grosso e umas tiras de pimentão vermelho da feira de sábado. O cheiro que subiu foi de proteína caramelizando devagar — um cheiro redondo, denso, que gruda na parede da cozinha. Quando virei, a crosta estava escura demais de um lado. Fogo alto demais no começo.