O cheiro de alho refogando no azeite me acordou antes do alarme tocar. Minha vizinha do andar de baixo deve estar preparando o almoço cedo — aquele aroma quente e reconfortante que sobe pelas janelas abertas e invade meu apartamento como um convite silencioso.
Decidi fazer um caldo verde hoje. Não o típico de couve e linguiça, mas uma versão que carrega memórias da minha avó: com folhas de mostarda que ela cultivava na horta, levemente amargas, que contrastam perfeitamente com a suavidade das batatas. Fiquei em dúvida se deveria seguir a receita dela à risca ou adicionar um toque de gengibre — no fim, escolhi a tradição. Algumas coisas não precisam de reinvenção.
Enquanto as batatas cozinhavam, lembrei da cozinha dela. Pequena, com azulejos azuis descascados, mas sempre com aquela panela grande no fogão. Ela dizia: "Comida boa demora, Lia. Pressa é inimiga do sabor." Eu tinha dez anos e queria que tudo ficasse pronto rápido. Hoje entendo o que ela quis dizer.