Acordei com aquela vontade antiga de fazer pão. Não a versão rápida com fermento químico, mas o pão lento, que pede paciência e mãos sujas de farinha. A luz da manhã entrava pela janela da cozinha quando abri o pacote de fermento biológico — aquele cheiro levemente adocicado me trouxe de volta à cozinha da minha avó, onde o pão era feito toda sexta-feira.
Comecei confiante demais. Adicionei água quente ao fermento, mas exagerei na quantidade. A massa ficou pegajosa, escorrendo entre os dedos como algo vivo e rebelde. Primeira lição do dia: respeitar as proporções, mesmo quando achamos que sabemos de cor. Respirei fundo, adicionei mais farinha aos poucos, sentindo a textura mudar sob as palmas das mãos. O movimento de sovar tem algo de meditativo — empurrar, dobrar, girar. A massa começou a ganhar elasticidade, aquela textura sedosa que anuncia que você está no caminho certo.
Enquanto esperava a primeira fermentação, lembrei de uma conversa com minha avó. Ela dizia que "pão bom pede conversa e tempo". Sentei perto da tigela coberta com um pano de prato, tomando café, observando a massa crescer devagar. É curioso como raramente fazemos isso hoje — simplesmente esperar por algo, sem pressa.
Decidi arriscar. Na segunda sova, adicionei alecrim fresco picado e um fio de azeite. O aroma que subiu foi imediato e potente: terroso, mediterrâneo, quente. Moldei a massa em dois pães pequenos, marquei a superfície com cortes diagonais e deixei crescer mais uma vez.
O forno aquecido recebeu os pães com um chiado suave. Vinte e cinco minutos depois, a cozinha inteira cheirava a infância, a domingos preguiçosos, a segurança. A crosta ficou dourada e crocante, o miolo macio com pequenas bolhas irregulares. Comi a primeira fatia ainda quente, só com manteiga derretendo. O sabor do alecrim surgia no final, quase como uma surpresa gentil.
Acho que vou fazer isso de novo na próxima semana. Talvez testar tomilho, ou azeitonas. Às vezes, o melhor da cozinha não é o resultado perfeito, mas o processo de chegar até ele.
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