Acordei com o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina. É domingo, e decidi fazer algo que não tentava há anos: a receita de bacalhau à Brás da minha avó. Encontrei o caderno dela na semana passada, as páginas amareladas guardando segredos de uma cozinha que já não existe mais.
Comecei a desfilar o bacalhau já dessalgado, os flocos brancos se separando facilmente entre meus dedos. A batata cortada em palitos finos — aqui cometi meu primeiro erro. Fritei demais, ficaram douradas demais, quase queimadas nas pontas. Será que dá para aproveitar? pensei. Decidi seguir em frente.
As cebolas refogadas encheram a cozinha de um aroma doce e familiar. Lembrei-me imediatamente da casa da avó em Sintra, aquela cozinha pequena com azulejos azuis, onde ela cozinhava cantarolando fados antigos. Ela sempre dizia: "A cebola tem que suar, não chorar". Só hoje entendi o que ela queria dizer com isso.