Acordei com o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina. É domingo, e decidi fazer algo que não tentava há anos: a receita de bacalhau à Brás da minha avó. Encontrei o caderno dela na semana passada, as páginas amareladas guardando segredos de uma cozinha que já não existe mais.
Comecei a desfilar o bacalhau já dessalgado, os flocos brancos se separando facilmente entre meus dedos. A batata cortada em palitos finos — aqui cometi meu primeiro erro. Fritei demais, ficaram douradas demais, quase queimadas nas pontas. Será que dá para aproveitar? pensei. Decidi seguir em frente.
As cebolas refogadas encheram a cozinha de um aroma doce e familiar. Lembrei-me imediatamente da casa da avó em Sintra, aquela cozinha pequena com azulejos azuis, onde ela cozinhava cantarolando fados antigos. Ela sempre dizia: "A cebola tem que suar, não chorar". Só hoje entendi o que ela queria dizer com isso.
Misturei tudo na frigideira: bacalhau, batatas (mesmo as torradinhas), cebola, e por fim os ovos batidos. O segredo, segundo as anotações dela, era mexer devagar e tirar do fogo antes de secar completamente. Vi a mistura ganhar aquela textura cremosa e úmida, amarelo-dourada, perfumada.
Provei. O sabor salgado do bacalhau equilibrado pela doçura da cebola, a textura macia dos ovos abraçando as batatas crocantes. As azeitonas pretas por cima e a salsa fresca trouxeram frescor. Não ficou exatamente como o dela — as minhas batatas estavam mais crocantes que o ideal — mas tinha algo de verdadeiro ali.
Comi devagar, sozinha na mesa, folheando o caderno de receitas. Cada mancha de gordura, cada anotação à margem ("mais alho!") era uma conversa com ela. A comida pode fazer isso: atravessar o tempo e trazer as pessoas de volta, nem que seja por um almoço de domingo.
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