Passei a manhã caminhando pelo bairro antigo, aquele com ruas de paralelepípedos que fazem os tornozelos trabalharem mais do que deveriam. O sol ainda estava baixo, criando sombras compridas que transformavam cada poste e cada pessoa em versões alongadas de si mesmas. Havia um cheiro de café escapando de uma padaria na esquina, misturado com o aroma de pão quente que fazia meu estômago reclamar por ter saído de casa sem café da manhã.
Parei em frente a uma banca de jornal que ainda existe – sim, ainda existem – e o dono, um senhor de uns sessenta anos, comentou: "Você é o rapaz que sempre passa por aqui olhando para cima, né?" Ri porque era verdade. Tenho esse hábito estranho de observar as janelas, os telhados, as antenas tortas. "É que lá embaixo já conheço", respondi. Ele acenou com a cabeça como quem entende perfeitamente.
Decidi fazer uma pequena experiência hoje: caminhar pela mesma rua que sempre percorro, mas do lado oposto da calçada. Parece bobagem, mas a perspectiva muda completamente. Prédios que costumam ficar à minha esquerda agora estão à direita, e de repente notei uma pequena livraria que nunca tinha visto antes. Como é possível passar por uma rua dezenas de vezes e não perceber uma livraria inteira?
Entrei, claro. O cheiro de papel velho e madeira envernizada me envolveu. Folheei alguns livros de viagem – irônico, considerando que estava ali justamente por estar viajando a pé pela própria cidade. Uma mulher ao meu lado pegava um guia de Istambul e suspirou. Aquele suspiro dizia tudo: saudade de lugares que talvez nunca visitou, ou memórias de lugares que deixou para trás.
Saí da livraria com as mãos vazias mas com a cabeça cheia. É engraçado como às vezes as melhores descobertas acontecem quando mudamos apenas um pequeno detalhe na rotina. Uma calçada diferente, um passo mais devagar, um olhar mais atento.
Amanhã vou tentar caminhar de trás para frente. Brincadeira. Ou não?
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