Saí pela saída errada do metrô Catumbi — a que dá para a rua de trás, não para a principal — e levei uns cinco minutos parado na calçada tentando entender onde o mapa me tinha colocado. Bom começo para um domingo de abril.
A ideia era atravessar o bairro a pé até a Praça da Bandeira e de lá resolver o retorno. Catumbi parece plano quando você olha no mapa. Na prática, tem aquela topografia que guarda uma ladeira atrás de cada esquina, geralmente no momento em que as pernas já começaram a negociar.
Na Rua Major Daemon tem um sobrado com letreiro de farmácia pintado diretamente na alvenaria — aquela caligrafia cursiva em branco com contorno azul escuro que se usava nos anos sessenta, talvez antes. A tinta descascou em partes mas a letra ainda aguentou. O prédio estava fechado, a janela do segundo andar com persiana pela metade. Fiquei mais tempo do que devia olhando para aquilo.
Comi pão de queijo em pé no balcão de uma padaria de esquina, com café numa xícara pequena que não esquentou a mão mas chegou quente o suficiente. Paguei com moedas que estavam no fundo do bolso desde não sei quando. A atendente foi eficiente e discreta, o que é exatamente tudo o que se pode pedir de uma padaria às onze da manhã de domingo.
Errei a travessa que eu queria duas vezes. Na terceira tentativa acertei o nome mas a rua descia de volta para onde eu já tinha passado. Voltei ao cruzamento, subi de novo, resmungando sem convicção. As pernas formalizaram a reclamação.
Cheguei à Praça da Bandeira com sol ainda razoável e a sensação de ter andado mais do que os seis quilômetros que o telefone marcou. No ônibus de volta, abri o caderno e escrevi: letreiro azul e branco, Rua Major Daemon, ainda de pé. Parece importante registrar essas coisas antes que alguém resolva cobrir com tinta nova.
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