Decidi tomar o caminho mais longo hoje. Não por exercício ou por alguma razão nobre — simplesmente porque a rua principal estava em obras e o desvio prometia uma travessa que nunca tinha explorado. Às vezes as melhores descobertas vêm disfarçadas de inconveniências.
A travessa revelou-se uma galeria improvisada de azulejos antigos, aqueles que contam histórias sem palavras. Uma fachada inteira dedicada a cenas marítimas, outra com padrões geométricos que pareciam hipnotizar. Parei em frente a um prédio onde faltavam três azulejos — arrancados ou caídos, não sei — e fiquei a imaginar que imagem completaria o puzzle. Um navio? Uma flor? A ausência às vezes diz mais que a presença.
No café da esquina, onde parei para um galão, ouvi dois senhores a discutir futebol com a paixão reservada apenas para assuntos verdadeiramente importantes.
"Aquele golo foi fora de jogo, claramente!"
"Claramente? Precisas de óculos, homem!"
Sorri para o meu copo. Há coisas que nunca mudam, independentemente da cidade ou do século.
Continuei a caminhada e dei comigo a comparar esta travessa com outra que conheci em Barcelona no ano passado. Ambas estreitas, ambas cheias de história nas paredes. Mas aqui havia um silêncio diferente — não vazio, mas contemplativo. Como se a rua guardasse segredos que só partilha com quem presta atenção.
No final da travessa, tive que escolher: virar à esquerda e voltar ao familiar, ou à direita rumo ao desconhecido. Escolhi a direita, claro. Sempre a direita quando há dúvida. É uma regra que inventei hoje e que provavelmente vou esquecer amanhã, mas por hoje serviu-me bem.
Descobri uma livraria minúscula que vende apenas livros de viagem. Como é que um negócio destes sobrevive? pensei. Mas sobrevive, e isso é o que importa.
Amanhã talvez volte lá. Ou talvez escolha outra obra, outro desvio. A cidade tem camadas infinitas — basta estar disposto a descascar uma de cada vez.
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