Acordei mais cedo que o costume hoje, antes do sol nascer completamente. Pela janela, vi aquele momento estranho em que o céu ainda está entre o cinza e o azul, e os pássaros começam a cantar sem pressa, como se estivessem a afinar os instrumentos antes de um concerto. Fiquei ali alguns minutos apenas a observar, sem o telemóvel, sem música, só eu e aquele silêncio que não é bem silêncio.
Depois do café, sentei-me para ler, mas percebi que estava a passar os olhos pelas páginas sem realmente absorver nada. A minha mente estava ocupada com uma conversa que tive ontem – não foi uma discussão, mas ficou aquela sensação de que podia ter dito as coisas de forma diferente, mais clara, mais honesta. É curioso como às vezes escolhemos palavras para proteger os outros, mas acabamos por criar mais confusão.
Decidi fazer algo diferente: escrevi num papel o que realmente queria ter dito, sem filtros, só para mim. Não vou enviar, não é esse o ponto. O exercício foi perceber a diferença entre o que penso e o que permito que saia da minha boca. Descobri que tenho medo de parecer demasiado direto, como se a clareza fosse uma forma de agressão. Mas será mesmo?
À tarde, fui caminhar sem rumo definido. Reparei numa criança que tentava saltar uma poça de água e falhou, molhando os sapatos. Ela riu-se. Os pais riram-se também. Fiquei a pensar: quando foi que começámos a ter medo de falhar nas pequenas coisas? Quando é que um sapato molhado deixou de ser engraçado e passou a ser um problema?
Talvez esta semana, antes de dormir, possas escrever apenas uma frase sobre algo que não correu como planeado hoje. Não precisa de ser profundo. Apenas nota. Vê o que acontece quando paras de evitar esses pequenos fracassos e começas a olhar para eles com curiosidade, como aquela criança olhou para os seus sapatos molhados.
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