Abri o computador às oito e meia e senti os ombros a subirem antes de qualquer pensamento. A caixa de entrada estava quieta. A agenda, quase vazia. Nada que justificasse o gesto do corpo — e ainda assim ali estava, esse leve encolher, como se o ecrã fosse uma ameaça que ainda não aconteceu.
Ontem à noite fui para a cama tarde, sem razão particular — ficou ali o telemóvel na mão por tempo a mais. Acordei sem clareza, os olhos pesados, o estômago com aquele ligeiro aperto que aparece quando o descanso não foi suficiente. São coisas distintas: o cansaço é no corpo, a falta de clareza é no pensamento, e o aperto no estômago tem uma qualidade diferente das duas — mais parecida com uma antecipação do que com um estado.
Fiquei com essa observação. O ombro como sinal antecipado, não como resposta. A hipótese que me ficou: o hábito de segunda-feira tem uma textura própria, instalada há anos — densidade, resistência — que se activa pelo calendário antes de qualquer dado concreto chegar. Como um arquivo que abre sozinho.
Esta semana estou a tentar uma coisa pequena: antes de abrir o computador, quinze minutos sem ecrã nenhum — café, janela, o quintal se estiver fresco. A ideia não é "preparar a mente". É só verificar se a tensão chega antes ou depois do gesto de entrar no trabalho.
- Hipótese: o gesto de abrir o ecrã activa o modo alerta antes de haver razão para isso
- Período: 3 a 7 de agosto
- Verificação: comparar tensão percebida às 9h com a semana anterior
- Hoje: ombros subiram uns minutos mais tarde do que é habitual
Não sei se esse atraso é variação ou coincidência. Também não sei se a tensão é do trabalho em geral ou deste formato específico — o ecrã, o silêncio, a ideia de segunda. Por agora deixo em aberto.
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