Acordei com os ombros tensos antes de abrir os olhos. Ainda deitado, reparo que a mandíbula está contraída. Não havia dormido mal — seis horas e meia, talvez sete — mas o corpo tinha essa qualidade específica de resistência, como se o dia já estivesse a custar antes de começar. O quarto estava silencioso. A luz de setembro entrava lateral, morna.
O primeiro pensamento claro foi: tenho muito para fazer esta semana. A sensação que acompanhou isso era algo próximo de ansiedade, mas mais frio e menos urgente, sem a qualidade de aperto que a ansiedade costuma ter no peito. Fiquei a distinguir as duas coisas por uns minutos sem me mexer. Queria ser preciso antes de etiquetar.
Esta semana comecei uma pequena experiência com os domingos: não verificar o telemóvel antes do pequeno-almoço. A hipótese é que o modo com que entro na primeira hora influencia o tom do resto do dia de forma desproporcional. Os parâmetros são:
- Período: quatro domingos seguidos
- Verificação: como me sinto às dez da manhã em cada um deles
- O que observo até agora: há um vácuo nos primeiros quinze minutos que inicialmente desconforta, e depois cede para algo com menos resistência — não exatamente calma, mas menor atrito com o silêncio
Hoje é o segundo domingo. Ainda não tenho dados suficientes para tirar conclusões, e prefiro não as antecipar.
Ao início da tarde dei uma volta pelo bairro. O estômago estava solto — sinal que uso como indicador de ausência de tensão imediata. Os pensamentos durante a caminhada eram fragmentados, sem direção clara. Deixei-os assim. Reparei num café novo na Rua do Souto e reparei, também, que não entrei.
A questão que fica desta tarde: aquela tensão da manhã era sobre a semana que aí vem, ou era algo mais antigo que simplesmente usou isso como superfície de apoio?
Por agora não decido.
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