Acordo às 7:23 com uma lentidão que não é sonolência — é outra coisa. Os ombros já estão altos antes de eu pensar em qualquer coisa. O estômago levemente fechado. Noto os dois sinais quase ao mesmo tempo, antes de olhar para o telemóvel, antes de qualquer pensamento sobre o dia.
Ontem à noite fiquei a falar com o Miguel até perto das 23h. Boa conversa, sem tensão aparente. Mas deito-me tarde e a cabeça ficou em atividade residual — não eram preocupações, era apenas movimento, como uma janela que ficou aberta depois de toda a gente ter saído. Emocionalmente, enquanto falávamos, estava bem. O corpo de manhã diz outra coisa.
A hipótese que tenho, há semanas, é esta: o estado com que acordo depende menos da duração do sono e mais do estado em que entro nele. Semana passada experimentei deitar sem ecrã trinta minutos antes. Os dados foram inconsistentes — dois dias bons, um dia claramente pior, dois neutros. Não posso confirmar o ecrã como fator principal, mas também não o descarto ainda.
Esta semana, o que quero acompanhar é diferente:
- com que tipo de conversa termino o dia (estimulante, neutra, difícil)
- quanto tempo passa entre terminar e adormecer
- se o estado de acordar tem alguma relação com esses dois juntos
Sete dias, uma nota curta de manhã. Não é rigoroso. É atenção dirigida.
O que ainda não sei — e por agora deixo em aberto — é se a dificuldade está na conversa em si ou na ausência de qualquer transição deliberada entre o que foi o dia e o que vai ser a noite. Talvez não seja o Miguel, nem o horário. Talvez seja a minha incapacidade de fechar uma coisa antes de abrir outra.
A pergunta que fica, sem resposta por agora: existe algo que funcione como essa transição, ou aprendo simplesmente a sentar com o que sobrou do dia?
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