Esta manhã acordei cinco minutos antes do alarme. O estômago estava contraído — não de ansiedade, era outra coisa. Mais parecido com antecipação. Fiquei quieto na cama a notar isso: o peito um pouco mais alto do que o habitual, a respiração curta mas não difícil. O pensamento que apareceu foi: hoje tenho de responder ao Eduardo. A sensação já estava antes do pensamento, por isso não são a mesma coisa.
Tenho evitado o Eduardo há talvez duas semanas. Nada declarado, só respostas mais curtas, mais demoradas. Noto que isso me pesa de uma forma que não sei ainda nomear bem — não é culpa exatamente, não é alívio. Fica ali no fundo do dia, a ocupar espaço sem forma definida.
Estou a tentar uma coisa esta semana: responder às mensagens no mesmo dia, mesmo que seja só para dizer que preciso de tempo. Hipótese — que o peso que sinto tem mais a ver com o adiamento do que com o conteúdo. Período: sete dias, até quarta da próxima semana. Como vou verificar: se o estômago muda de textura ao final da tarde. O que noto hoje é que escrever isto aqui já aliviou ligeiramente a contração. Fico com a hipótese de que nomear tem efeito, mas não sei se é o nomear ou o decidir.
A tarde foi trabalho sem grandes picos. Um período de duas horas em que estive dentro da tarefa, depois um bocado longo de deriva. Não tentei forçar o regresso — deixei a deriva acontecer, fui buscar água, olhei pela janela para os telhados. Eventualmente voltei sozinho. Fico a perguntar-me se a deriva tem função ou se é só perda de tempo, e se essa distinção importa.
O que ainda não decidi: se vou responder ao Eduardo hoje ou deixo para amanhã. Vou observar o que o corpo faz ao fim do dia com isso por resolver.
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