Acordei com o estômago fechado. Não estava com fome e, por isso, não pequei nada. Fui direto ao café — o hábito, não a decisão. Eram oito e vinte e o dia lá fora estava nublado, daquele cinzento claro que não promete nem chove nem clareia.
A meio da manhã reparei nos ombros: subidos, próximos das orelhas. O pensamento que acompanhava era qualquer coisa sobre uma tarefa que ficou por acabar ontem. O que senti — separado do pensamento e dos ombros — era uma espécie de impaciência seca, sem objeto claro. Não era ansiedade, pelo menos não do tipo que reconheço como tal. Era mais um estado de espera forçada, como se eu estivesse pronto antes de haver razão para estar pronto.
Tenho andado a observar o que acontece quando não como de manhã. Hipótese: o jejum até ao meio-dia comprime a janela de atenção e aumenta a irritabilidade por volta das onze. Estou nisto há cinco dias. A forma de verificar é simples — noto onde está a minha atenção às dez e meia e registo se há uma tendência para saltitar entre tarefas ou para me fixar numa sem conseguir parar. Até agora: os primeiros dois dias pareceram mais claros; desde o terceiro a dispersão voltou ao nível habitual. Fico com a hipótese em aberto.
Falei com um amigo ao almoço. Reparei que saí da conversa com os olhos mais pesados do que entrei, não por tristeza mas por uma espécie de saturação auditiva. Não é algo que eu saiba nomear bem ainda. Pode ser simples cansaço; pode ser algo sobre o tipo de atenção que aquela conversa pede.
A pergunta que me fico a fazer: será que a manhã sem comida afeta também a tolerância ao ruído social, ou são coisas independentes?
Amanhã vejo o que acontece se pequeno antes das oito.
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