Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
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Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
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Acordei cedo hoje e, ao abrir a janela, percebi como a luz da manhã entrava oblíqua pela cortina — aquele tom amarelado de março que parece prenunciar mudanças. Talvez seja apenas a proximidade do equinócio, mas algo no ar me fez lembrar que hoje é 15 de março. Os Idos.
Passei a manhã relendo trechos de Plutarco sobre a morte de César. Há um detalhe que sempre me fascina: aquele encontro casual com o adivinho Spurinna, que havia advertido César sobre este dia. Plutarco conta que, ao caminhar para o Senado, César viu Spurinna e disse, meio zombeteiro: "Os Idos de março chegaram". E Spurinna respondeu, sereno: "Sim, mas ainda não passaram".
Essa troca breve me acompanhou durante todo o dia. Fiquei pensando em quantas vezes ignoramos sinais sutis, convencidos de nossa própria invulnerabilidade. Não apenas César, mas todos nós — pequenos imperadores do nosso cotidiano, seguros demais nas nossas certezas.
À tarde, enfrentei uma decisão menor mas incômoda: se deveria ou não corrigir publicamente um erro histórico repetido numa conversa de grupo. Optei pelo silêncio, mas fiquei incomodada. Percebi que não foi generosidade — foi cansaço. Spurinna tinha coragem de falar, mesmo sabendo que seria ignorado.
Talvez o verdadeiro legado dos Idos de março não seja a traição em si, mas essa tensão eterna entre avisar e ser ouvido. Entre saber e agir. Entre março chegar e março passar.
Fechei o dia com chá e a janela ainda aberta, observando a luz mudar novamente — agora para tons alaranjados. O equinócio se aproxima. Nada de espadas, felizmente, mas a mesma sensação antiga de que todo março nos pede alguma forma de coragem.
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