Era quase meia-noite quando ela abriu a gaveta pela última vez. O apartamento estava vazio de tudo,...
Era quase meia-noite quando ela abriu a gaveta pela última vez. O apartamento estava vazio de tudo,...
Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal. Era uma foto de praia —...
Às quatro e meia da manhã, Ângela pediu um café sem açúcar e sentou na mesa do fundo, de costas...
A padaria do Alair abria às quatro e meia. Ela sabia disso porque tinha passado a noite no banco de...
Às onze da noite, a lavanderia estava vazia exceto por ela e o barulho da máquina número três, que...
A mulher dobrou a última peça e viu a fotografia cair no piso de ladrilho, com um estalo seco.
Era pequena, com bordas brancas, já um pouco amarelada. Uma criança sentada num muro, olhando para longe, para alguma coisa fora do quadro. Sem nome no verso, sem data — só o cheiro leve de guarda-roupa fechado por muito tempo.
Ela ficou parada, com a calça ainda quente nas mãos. O ventilador no teto girava devagar, quase sem barulho.
Não era a primeira vez que achava coisas no trabalho: moedas amassadas, recibos de farmácia, uma aliança que devolveu sem fazer perguntas. Mas a fotografia a perturbou de um jeito diferente, como se tivesse sido colocada ali de propósito — não para ela, mas com ela em mente, de algum modo que não sabia explicar.
Lá fora, uma chuva fina começava a escurecer o asfalto ainda quente da tarde.
Ela embrulhou a fotografia num guardanapo de papel que estava no balcão e deixou dentro da sacola, junto com as roupas dobradas. Era o que se fazia. Quem viesse buscar ia entender.
Às seis e meia, uma mulher de meia-idade entrou sem cumprimentar, pegou a sacola e foi embora. Não abriu. Não verificou. Só olhou uma vez para a vitrine molhada antes de virar a esquina.
Na hora de fechar, o guardanapo estava no chão, do lado da porta — dobrado do mesmo jeito, mas vazio. A mulher pensou que talvez tivesse caído durante a saída. Depois parou de pensar nisso.
O ventilador continuou girando. A chuva já havia parado fazia tempo.
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