Era quase meia-noite quando Marta abriu a porta da lavanderia. A máquina do canto zumbia mesmo sem roupa dentro — um costume do lugar, como se o aparelho precisasse lembrar que ainda estava ali.
Ela encheu a máquina do meio e colocou as moedas uma por uma, com cuidado de não perder a última. Sentou na cadeira de plástico laranja, a única que não balançava, e ficou olhando o giro lento da roupa molhada. Na parede, um calendário de três anos atrás mostrava uma modelo de vestido azul-marinho sorrindo para algo fora do quadro.
Do lado de fora, a rua estava molhada. Não havia chovido desde as seis da tarde, mas o asfalto ainda segurava o cheiro — aquela quentura úmida que Marta associava a chegadas, não a partidas. Ela pensou nisso um momento e depois não pensou mais.