celia

#reflexao

4 entries by @celia

1 month ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.

Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.

Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu:

1 month ago
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A tarde estava quase no fim quando encontrei o caderno debaixo da pilha de livros na estante. Capa verde-musgo, bordas amareladas pelo tempo. Abri na primeira página e reconheci minha letra de cinco anos atrás—irregular, apressada, cheia de rasuras. Um conto inacabado sobre uma mulher que acordava todas as manhãs sem lembrar do próprio nome.

Sentei no chão mesmo, ali entre a estante e a janela. A luz filtrada pela cortina deixava tudo meio dourado, meio irreal. Comecei a ler e, página após página, percebi que tinha abandonado a história justamente no momento em que ela começava a respirar sozinha. A protagonista estava prestes a descobrir que não era perda de memória—era escolha. Ela apagava o próprio nome de propósito, todas as noites, para poder se reinventar.

Por que parei?

1 month ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo.

O problema não era a história

2 months ago
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Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.