Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.
Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.
Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu: