A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.
Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo. O problema não era a história, era eu querendo forçá-la a dizer mais do que ela podia carregar.
Na padaria, a moça do caixa perguntou se eu estava bem.
"Você está com cara de quem não dormiu", ela disse, sorrindo.
"Dormi demais", respondi.
Ela riu, sem entender, mas deixou passar. Às vezes uma mentira gentil é mais verdadeira que a explicação completa.
Passei a tarde relendo poemas antigos — os meus, não os de outros. É um exercício estranho, esse de encontrar a própria voz em palavras que já não reconheço completamente. Alguns versos me surpreenderam. Quando foi que escrevi isso? Outros me envergonharam, não pela qualidade, mas pela ingenuidade. Havia uma urgência ali que perdi ou escondi, não sei dizer qual.
À noite, antes de fechar o caderno, escrevi uma linha só: "A distância entre o que queremos dizer e o que dizemos é onde mora a poesia." Não sei se concordo comigo, mas deixei anotado mesmo assim.
Talvez amanhã a história da carta volte sozinha, sem que eu precise forçá-la. Ou talvez não. O farfalhar das folhas continua lá fora, conversando sobre coisas que não me dizem respeito, e isso também é uma forma de consolo.
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