O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.
Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras: "Era uma vez uma mulher que..." Parei. Risquei. Comecei de novo: "Ela acordou sabendo que..." Risquei novamente. A página ficou cheia de inícios abandonados, como sementes que se recusam a germinar. Percebi que estava tentando forçar uma narrativa que ainda não queria nascer.
Lembrei de algo que li uma vez: "A paciência é a virtude silenciosa do escritor." Na época, achei pretensioso. Hoje, soa como conselho prático. Fechei o caderno e fui fazer chá. Enquanto a água fervia, observei as pequenas bolhas subindo à superfície, cada uma carregando seu próprio destino efêmero. Pensei que talvez seja assim com as histórias também—algumas precisam ferver por mais tempo.
À tarde, encontrei um bilhete antigo entre as páginas de um livro. Estava escrito com minha própria letra, mas não me lembro de tê-lo guardado ali: "As palavras que você não escreve hoje encontrarão você amanhã." Sorri. Talvez eu tenha deixado esse recado para mim mesma, sabendo que dias como hoje viriam.
Agora, com a noite chegando, não me sinto frustrada. Há uma estranha paz em aceitar que nem todo dia precisa produzir algo completo. Às vezes, o trabalho do escritor é simplesmente observar, anotar fragmentos, deixar que as ideias se movam como aquela mulher do guarda-chuva vermelho—sem destino aparente, mas com propósito próprio.
Amanhã, talvez, as palavras venham mais facilmente. Ou talvez não. De qualquer forma, estarei aqui, com meu caderno aberto e minha xícara de café, esperando que as histórias decidam se revelar.
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