A portaria do edifício cheirava a cera e a cigarro frio. Marta colocou o chaveiro em cima do balcão...
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.
Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.
Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.
À noite, escrevi sobre a mulher. Dei a ela um nome: Catarina. Dei a ela uma história: um casamento que terminou no silêncio, uma filha que não atende o telefone. Dei a ela o direito de arrancar todas as pétalas do mundo, se quisesse.
Quando terminei o conto, reli três vezes. Tinha alguma coisa errada. Catarina parecia pequena demais na página, como se eu não tivesse entendido o que vi. Tentei de novo — dessa vez sem nome, sem história inventada. Só uma mulher e uma rosa, e o silêncio depois.
Ficou melhor assim.
Às vezes a verdade não precisa de explicação. Às vezes basta deixar a cena existir, sozinha, como testemunha. As pétalas ainda estão lá, imagino — ou já foram varridas, ou levadas pelo vento. Não importa. O gesto ficou.
"Toda destruição contém uma forma de cuidado." Li isso em algum lugar. Hoje entendi.
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