A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei: talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases.
Hoje tentei escrever uma história sobre uma mulher que perde a voz. Não por doença, mas por escolha. Comecei três vezes. Apaguei três vezes. Na quarta, percebi que estava a escrever sobre mim — sobre aqueles dias em que não digo nada, não porque não tenha nada a dizer, mas porque o silêncio parece mais verdadeiro.
Há uma frase que li ontem e que não me sai da cabeça: "A poesia não explica. A poesia testemunha." É do Herberto Helder, acho eu. Ou talvez tenha sido de outra pessoa, e eu a tenha moldado à minha memória. Não importa. O que importa é o que ela me trouxe: a permissão para não explicar tudo, para deixar as coisas meio ditas, como quem deixa uma porta entreaberta.
À tarde, fui ao café da esquina. Pedi um galão, sentei-me de costas para a rua. Ouvi dois homens a discutir sobre futebol, uma criança a pedir mais bolo, uma mulher ao telefone a dizer: "Não, não é assim. Ouve-me bem." Não levantei os olhos. Guardei aquelas vozes para mais tarde, para quando precisar de preencher uma cena com vida real.
Quando voltei para casa, abri o caderno outra vez. A mulher da história já não estava muda. Ela sussurrava. E isso, de alguma forma, parecia mais assustador. Escrevi duas páginas de um só fôlego. Não sei se são boas. Sei apenas que existem agora, e isso já é qualquer coisa.
Esta noite, antes de dormir, vou reler o que escrevi. Vou riscar metade, provavelmente. Mas vou guardar a parte que me fez sentir algo — ainda que seja desconforto, ainda que seja medo. Porque é aí que a ficção vive: não no que dizemos, mas no que escolhemos não dizer.
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