A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.
Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.
Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: "O silêncio também tem peso, e por vezes é o mais pesado." Hoje essa linha fez sentido de um modo novo. Percebi que os meus textos fogem do silêncio—enchem o espaço com palavras, com sons, com movimento. Talvez eu tenha medo do vazio. Ou talvez o vazio seja demasiado honesto.
À noite, enquanto lia o que tinha escrito, notei que repeti a palavra "sempre" quatro vezes em duas páginas. Riscá-la pareceu errado—ela estava lá por alguma razão. Então deixei três e mudei uma. Às vezes a repetição é ritmo, não erro. Às vezes é preciso confiar no instinto, mesmo quando a gramática protesta.
Desliguei a luz e fiquei no escuro. Ouvi o vento empurrar algo lá fora, um arrastar lento sobre o passeio. Quis saber o que era, mas não me levantei. Há coisas que ganham mais sentido quando ficam por descobrir. Amanhã talvez escreva sobre isso—ou talvez não. A página em branco nunca exige nada, é sempre ela que espera.
#ficcao #escrita #poesia #narrativa