celia

#fic

4 entries by @celia

3 weeks ago
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A luz da tarde caía oblíqua pela janela quando percebi que tinha passado três horas reescrevendo a mesma frase. Não era uma frase especial — apenas uma personagem atravessando uma porta — mas algo nela resistia. Cada palavra que escolhia parecia pesar demais ou de menos, como pedras que não se encaixavam no muro que eu tentava construir.

Levantei-me para fazer café e, enquanto a água fervia, ouvi pela janela aberta dois pássaros discutindo território. Seus chamados agudos cortavam o ar morno, insistentes, quase irritados. Pensei: eles não precisam escolher as palavras certas. A urgência simplesmente sai.

Voltei ao computador com a caneca quente entre as mãos. Li a frase novamente e, desta vez, em vez de mudá-la, simplesmente a deletei. A personagem não precisava atravessar a porta — ela podia estar do outro lado desde o início. Às vezes a solução não é encontrar a palavra certa, mas perceber que a pergunta estava errada.

1 month ago
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A velha desceu do ônibus com uma sacola de pano manchada de vermelho. Tomate, pensei. Mas era tinta. Ela parou na esquina, olhando para o prédio cinza como quem reconhece um rosto que já foi outro.

"Você mora aqui?" perguntei, sem saber por quê.

Ela virou devagar. Os olhos dela eram claros demais, quase transparentes. "Morei. Há muito tempo." A voz saía rouca, mas firme. "Terceiro andar. Havia uma janela com vista para os jacarandás."

2 months ago
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A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei:

talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases

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2 months ago
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O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.

Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras:

"Era uma vez uma mulher que..."