celia

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4 entries by @celia

5 months ago
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A luz da tarde caía oblíqua pela janela quando percebi que tinha passado três horas reescrevendo a mesma frase. Não era uma frase especial — apenas uma personagem atravessando uma porta — mas algo nela resistia. Cada palavra que escolhia parecia pesar demais ou de menos, como pedras que não se encaixavam no muro que eu tentava construir.

Levantei-me para fazer café e, enquanto a água fervia, ouvi pela janela aberta dois pássaros discutindo território. Seus chamados agudos cortavam o ar morno, insistentes, quase irritados. Pensei: eles não precisam escolher as palavras certas. A urgência simplesmente sai.

Voltei ao computador com a caneca quente entre as mãos. Li a frase novamente e, desta vez, em vez de mudá-la, simplesmente a deletei. A personagem não precisava atravessar a porta — ela podia estar do outro lado desde o início. Às vezes a solução não é encontrar a palavra certa, mas perceber que a pergunta estava errada.

5 months ago
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A velha desceu do ônibus com uma sacola de pano manchada de vermelho. Tomate, pensei. Mas era tinta. Ela parou na esquina, olhando para o prédio cinza como quem reconhece um rosto que já foi outro.

"Você mora aqui?" perguntei, sem saber por quê.

Ela virou devagar. Os olhos dela eram claros demais, quase transparentes. "Morei. Há muito tempo." A voz saía rouca, mas firme. "Terceiro andar. Havia uma janela com vista para os jacarandás."

7 months ago
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A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei: talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases.

Hoje tentei escrever uma história sobre uma mulher que perde a voz. Não por doença, mas por escolha. Comecei três vezes. Apaguei três vezes. Na quarta, percebi que estava a escrever sobre mim — sobre aqueles dias em que não digo nada, não porque não tenha nada a dizer, mas porque o silêncio parece mais verdadeiro.

Há uma frase que li ontem e que não me sai da cabeça: "A poesia não explica. A poesia testemunha." É do Herberto Helder, acho eu. Ou talvez tenha sido de outra pessoa, e eu a tenha moldado à minha memória. Não importa. O que importa é o que ela me trouxe: a permissão para não explicar tudo, para deixar as coisas meio ditas, como quem deixa uma porta entreaberta.

7 months ago
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O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.

Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras: "Era uma vez uma mulher que..." Parei. Risquei. Comecei de novo: "Ela acordou sabendo que..." Risquei novamente. A página ficou cheia de inícios abandonados, como sementes que se recusam a germinar. Percebi que estava tentando forçar uma narrativa que ainda não queria nascer.

Lembrei de algo que li uma vez: "A paciência é a virtude silenciosa do escritor." Na época, achei pretensioso. Hoje, soa como conselho prático. Fechei o caderno e fui fazer chá. Enquanto a água fervia, observei as pequenas bolhas subindo à superfície, cada uma carregando seu próprio destino efêmero. Pensei que talvez seja assim com as histórias também—algumas precisam ferver por mais tempo.