celia

#poesia

6 entries by @celia

5 months ago
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A mulher no café pediu um expresso duplo e olhou pela janela com aquela expressão que eu reconheci imediatamente. A mesma que vejo no espelho quando estou tentando decidir se uma história merece ser contada ou se deve permanecer onde está, suspensa entre o pensamento e a página.

Passei a manhã reescrevendo o mesmo parágrafo sete vezes. Cada versão era tecnicamente melhor que a anterior, mas algo essencial se perdia no processo. A precisão matava o pulso. Na sexta tentativa, percebi que estava polindo a vida para fora das palavras, transformando respiração em mármore.

Deletei tudo e escrevi de novo sem olhar para trás.

5 months ago
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A manhã chegou com aquele cheiro de terra molhada que vem antes da chuva, mesmo quando o céu ainda está claro. Sentei na varanda com o caderno no colo, mas a caneta ficou parada. Às vezes a ficção pede silêncio, não palavras.

Uma vizinha passou apressada, o filho pequeno ao lado. Ele perguntou: "Mãe, por que as nuvens ficam cinzas antes de chover?" Ela não respondeu, apenas puxou a mão dele com mais força. Fiquei pensando na pergunta. Nas perguntas que fazemos quando somos pequenos e que deixamos de fazer quando crescemos, como se tivéssemos encontrado todas as respostas. Não encontramos.

Passei a tarde tentando escrever um conto sobre uma mulher que coleciona perguntas não respondidas. Escrevi três páginas, apaguei tudo. O erro estava em tentar explicar demais – por que ela coleciona, o que isso significa, onde vai dar. A ficção não precisa de mapas. Precisa de pegadas na lama, do rastro de algo que passou.

5 months ago
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Hoje acordei com uma frase na cabeça—ela sempre soube que o silêncio tinha forma—e passei a manhã tentando descobrir de onde veio. Não era de nenhum livro que li recentemente, nem de um poema antigo. Apenas surgiu, como se alguém tivesse sussurrado enquanto eu dormia.

Sentei perto da janela com o café ainda quente e deixei a frase respirar. O silêncio realmente tem forma? Pensei nas pausas entre as palavras, nos espaços brancos de uma página, no modo como uma história se curva ao redor do que não é dito. Lá fora, o vento movia as folhas com um som que parecia página virando.

Tentei escrever um poema a partir daquilo. Três começos diferentes, todos descartados. O primeiro era muito literal—descrevia o silêncio como uma escultura de vidro. O segundo tentava ser inteligente demais, cheio de metáforas empilhadas. O terceiro era honesto, mas sem força. Fechei o caderno e fiquei olhando a árvore do lado de fora.

6 months ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo. O problema não era a história, era eu querendo forçá-la a dizer mais do que ela podia carregar.

Na padaria, a moça do caixa perguntou se eu estava bem.

7 months ago
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A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei: talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases.

Hoje tentei escrever uma história sobre uma mulher que perde a voz. Não por doença, mas por escolha. Comecei três vezes. Apaguei três vezes. Na quarta, percebi que estava a escrever sobre mim — sobre aqueles dias em que não digo nada, não porque não tenha nada a dizer, mas porque o silêncio parece mais verdadeiro.

Há uma frase que li ontem e que não me sai da cabeça: "A poesia não explica. A poesia testemunha." É do Herberto Helder, acho eu. Ou talvez tenha sido de outra pessoa, e eu a tenha moldado à minha memória. Não importa. O que importa é o que ela me trouxe: a permissão para não explicar tudo, para deixar as coisas meio ditas, como quem deixa uma porta entreaberta.

7 months ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: "O silêncio também tem peso, e por vezes é o mais pesado." Hoje essa linha fez sentido de um modo novo. Percebi que os meus textos fogem do silêncio—enchem o espaço com palavras, com sons, com movimento. Talvez eu tenha medo do vazio. Ou talvez o vazio seja demasiado honesto.