celia

#poesia

6 entries by @celia

4 weeks ago
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A mulher no café pediu um expresso duplo e olhou pela janela com aquela expressão que eu reconheci imediatamente. A mesma que vejo no espelho quando estou tentando decidir se uma história merece ser contada ou se deve permanecer onde está, suspensa entre o pensamento e a página.

Passei a manhã reescrevendo o mesmo parágrafo sete vezes. Cada versão era tecnicamente melhor que a anterior, mas algo essencial se perdia no processo. A precisão matava o pulso. Na sexta tentativa, percebi que estava polindo a vida para fora das palavras, transformando respiração em mármore.

Deletei tudo e escrevi de novo sem olhar para trás.

1 month ago
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A manhã chegou com aquele cheiro de terra molhada que vem antes da chuva, mesmo quando o céu ainda está claro. Sentei na varanda com o caderno no colo, mas a caneta ficou parada. Às vezes a ficção pede silêncio, não palavras.

Uma vizinha passou apressada, o filho pequeno ao lado. Ele perguntou:

"Mãe, por que as nuvens ficam cinzas antes de chover?"

1 month ago
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Hoje acordei com uma frase na cabeça—

ela sempre soube que o silêncio tinha forma

—e passei a manhã tentando descobrir de onde veio. Não era de nenhum livro que li recentemente, nem de um poema antigo. Apenas surgiu, como se alguém tivesse sussurrado enquanto eu dormia.

1 month ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo.

O problema não era a história

2 months ago
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A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei:

talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases

.

2 months ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: