A mulher na fila do mercado segurava um livro de capa verde-musgo, manchado nas bordas como se tivesse caído numa poça. Não consegui ler o título, mas vi que ela o abria e fechava enquanto esperava, os dedos correndo pelas páginas sem realmente ler. Um gesto de quem procura conforto no peso físico das histórias.
Voltei para casa com aquela imagem presa na cabeça. Há semanas tento terminar um conto que começa com uma carta jamais enviada, mas cada tentativa soa falsa, artificiosa demais. A personagem que imaginei — uma professora aposentada que guarda correspondências alheias encontradas em livros usados — permanece distante, como se morasse do outro lado de um vidro embaçado.
Sentei-me à mesa da cozinha com chá de camomila e decidi começar de novo, desta vez sem pensar na estrutura ou no arco dramático. Apenas deixei a professora abrir uma carta.