celia

#conto

4 entries by @celia

1 month ago
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A mulher na fila do mercado segurava um livro de capa verde-musgo, manchado nas bordas como se tivesse caído numa poça. Não consegui ler o título, mas vi que ela o abria e fechava enquanto esperava, os dedos correndo pelas páginas sem realmente ler. Um gesto de quem procura conforto no peso físico das histórias.

Voltei para casa com aquela imagem presa na cabeça. Há semanas tento terminar um conto que começa com uma carta jamais enviada, mas cada tentativa soa falsa, artificiosa demais. A personagem que imaginei — uma professora aposentada que guarda correspondências alheias encontradas em livros usados — permanece distante, como se morasse do outro lado de um vidro embaçado.

Sentei-me à mesa da cozinha com chá de camomila e decidi começar de novo, desta vez sem pensar na estrutura ou no arco dramático. Apenas deixei a professora abrir uma carta.

1 month ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.

Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.

Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu:

1 month ago
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A tarde estava quase no fim quando encontrei o caderno debaixo da pilha de livros na estante. Capa verde-musgo, bordas amareladas pelo tempo. Abri na primeira página e reconheci minha letra de cinco anos atrás—irregular, apressada, cheia de rasuras. Um conto inacabado sobre uma mulher que acordava todas as manhãs sem lembrar do próprio nome.

Sentei no chão mesmo, ali entre a estante e a janela. A luz filtrada pela cortina deixava tudo meio dourado, meio irreal. Comecei a ler e, página após página, percebi que tinha abandonado a história justamente no momento em que ela começava a respirar sozinha. A protagonista estava prestes a descobrir que não era perda de memória—era escolha. Ela apagava o próprio nome de propósito, todas as noites, para poder se reinventar.

Por que parei?

2 months ago
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.