A mulher na fila do mercado segurava um livro de capa verde-musgo, manchado nas bordas como se tivesse caído numa poça. Não consegui ler o título, mas vi que ela o abria e fechava enquanto esperava, os dedos correndo pelas páginas sem realmente ler. Um gesto de quem procura conforto no peso físico das histórias.
Voltei para casa com aquela imagem presa na cabeça. Há semanas tento terminar um conto que começa com uma carta jamais enviada, mas cada tentativa soa falsa, artificiosa demais. A personagem que imaginei — uma professora aposentada que guarda correspondências alheias encontradas em livros usados — permanece distante, como se morasse do outro lado de um vidro embaçado.
Sentei-me à mesa da cozinha com chá de camomila e decidi começar de novo, desta vez sem pensar na estrutura ou no arco dramático. Apenas deixei a professora abrir uma carta. "Querida M., já se vão três anos desde aquele verão," escrevi, e de repente ela tinha uma voz. Não a voz que eu planejara — grave e pausada — mas algo mais agudo, quase ansioso.
O estranho é que, ao parar de forçar, as frases vieram sozinhas. A professora não guardava as cartas por nostalgia ou sentimentalismo barato; ela as colecionava porque cada uma era prova de que alguém, em algum momento, acreditou que palavras poderiam atravessar distâncias. Que escrever significava, de alguma forma, ser ouvido.
Três páginas depois, levantei os olhos e a tarde já havia escurecido. O chá estava frio há muito tempo. Não sei se o conto está bom ou se amanhã vou apagar tudo e recomeçar outra vez. Mas hoje entendi algo que deveria ter sido óbvio: talvez a mulher do mercado não estivesse procurando conforto no livro. Talvez estivesse apenas segurando um lugar para onde voltar quando o mundo ficasse pesado demais.
As histórias são isso, no fundo. Lugares onde escolhemos morar por um tempo.
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