A mulher na estação de metrô segurava um livro de capa desgastada. Percebi porque era o mesmo que eu terminara há três dias — um romance sobre memórias inventadas. Ela virava as páginas devagar demais, como se estivesse lendo cada linha duas vezes. Ou talvez não estivesse lendo de verdade, apenas fingindo para não precisar olhar para ninguém.
Pensei em começar uma conversa. Você gostou da parte onde ele confessa que nunca existiu? Mas não disse nada. Há algo sagrado no silêncio de quem lê em público, uma bolha invisível que não deve ser perfurada. Fiquei imaginando que tipo de história ela estaria escrevendo na própria cabeça enquanto fingia ler a minha — ou a do autor, tanto faz.
Cheguei em casa e tentei escrever sobre o encontro que não aconteceu. Três parágrafos sobre estações e livros e solidão compartilhada. Deletei tudo. A verdade é que eu queria capturar aquele momento exato em que decidi não falar, o peso daquela escolha, mas as palavras saíam explicativas demais, óbvias demais.
Então mudei de estratégia. Escrevi sobre uma personagem que sempre fala com estranhos no metrô, que não consegue deixar passar uma oportunidade de conexão. Alguém completamente diferente de mim. E foi estranho como, ao inventar o oposto, consegui entender melhor minha própria hesitação.
A ficção às vezes é só um espelho torto. A gente se olha de um ângulo diferente e finalmente vê o que sempre esteve lá. A mulher do metrô provavelmente nem se lembra de mim, mas ela vai aparecer em alguma história minha, disso tenho certeza. Talvez como alguém que fala, que rompe o silêncio.
Ou talvez eu apenas escreva sobre o livro de capa desgastada, e deixe o resto no ar.
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