A janela estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia aquele cheiro de terra molhada que só março conhece. Fiquei ali, ainda debaixo das cobertas, ouvindo o murmúrio distante de uma conversa na rua. Duas vozes que não consegui distinguir, mas que pareciam discutir algo banal – talvez o preço do pão, talvez o horário de um ônibus. É curioso como esses fragmentos alheios às vezes ecoam mais forte que nossas próprias certezas.
Passei a manhã tentando terminar um conto que comecei há semanas. A personagem principal – uma mulher que coleciona bilhetes de cinema antigos – simplesmente não queria cooperar. Cada frase que eu escrevia parecia errada, artificial. Então parei. Levantei, preparei café, e enquanto a água fervia, percebi meu erro: eu estava tentando explicar demais. Tentando justificar por que ela colecionava os bilhetes, quando a verdade é que algumas coisas simplesmente acontecem sem razão. Apaguei três parágrafos inteiros.
À tarde, reli um verso de Sophia que anotei há meses: "O poema me toma, me habita, me devasta." E entendi, finalmente, o que minha personagem precisava. Não explicações, mas devastação. Aquele pequeno ritual dela – guardar bilhetes de filmes que assistiu sozinha – era uma forma de segurar o tempo, de não deixar que tudo escorresse tão rápido. Escrevi mais cinco páginas sem parar.
Agora, com o sol se pondo e a luz ficando azulada na parede, sinto aquele cansaço bom de quem trabalhou com as mãos na terra. A escrita é assim: alguns dias você cava e cava e não encontra nada. Outros, tropeça em ouro sem querer.
A personagem ainda não tem nome. Mas ela existe agora. E isso já é alguma coisa.
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