Ela estava dobrando as calças quando encontrou a chave.
A lavanderia ficava aberta até meia-noite, mas àquela hora da manhã só havia ela e o zumbido das máquinas. A atendente dormia atrás do balcão com a cabeça apoiada no antebraço. Um ventilador de teto girava devagar, empurrando o ar quente de um lado para o outro sem resolver nada. Lá fora, a rua ainda cheirava a chuva da madrugada — asfalto molhado que o calor ia desfazendo aos poucos.
A chave era pequena, de alumínio, com uma etiqueta de papelão amarrotada presa no anel. Ela virou o cartão. Na frente, em letra pequena e inclinada: quarto 7. No verso, uma data de três anos atrás.
Ela ficou olhando por um tempo que não soube medir.
As calças não eram dela. Eram do ex-marido, deixadas numa sacola junto com outras roupas que ele tinha esquecido no apartamento quando foi embora. Ela guardou a sacola por meses antes de trazer para lavar — não sabia bem por quê. Talvez por isso o ventilador parecesse mais pesado agora, girando com um esforço que não levava a lugar nenhum, movendo o mesmo ar de sempre.
Ela fechou a chave na palma da mão. Sentiu o metal frio.
A atendente acordou com o barulho de uma máquina que parou. Levantou a cabeça, olhou para ela com os olhos ainda lentos, sem pressa de entender nada.
—Acabou? — perguntou.
—Acabou — disse ela.
Ela deixou a chave em cima do balcão, ao lado do troco que não tinha pegado. Saiu com as calças dobradas no braço. Lá fora, a rua estava começando a clarear. O cheiro da chuva ainda estava lá, mas mais fraco agora — como se também fosse embora.
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