A mulher da janela do prédio em frente fechou as cortinas às seis da tarde, como sempre. Eu estava sentada com o caderno aberto, a caneta parada no ar, esperando que alguma palavra viesse. Nada. Apenas o som do trânsito lá embaixo e o cheiro de café requentado na xícara ao meu lado.
Pensei em escrever sobre ela—a mulher das cortinas. Inventar uma vida inteira: seus medos, seus amores secretos, a razão pela qual fecha as cortinas sempre no mesmo horário. Mas seria justo? Transformar uma desconhecida em personagem sem sua permissão parecia uma pequena traição.
"Você escreve sobre pessoas reais?" minha sobrinha me perguntou semana passada, com aqueles olhos curiosos de quem ainda acredita que escritores têm respostas. Eu ri. Talvez, respondi. Ou talvez eu escreva sobre fantasmas que se parecem com pessoas reais.
Hoje tentei algo diferente. Em vez de inventar a vida da mulher, escrevi sobre a cortina em si—o tecido desbotado, azul-acinzentado, com um rasgão pequeno no canto inferior. Sobre como ela se move quando alguém a puxa, criando uma onda de tecido que parece respirar. Sobre o gesto repetido, dia após dia, esse ritual de separação entre o mundo lá fora e o santuário lá dentro.
Descobri que a cortina contava mais do que qualquer biografia inventada poderia contar.
Às vezes, escrever não é sobre preencher páginas com grandes histórias. É sobre perceber o pequeno rasgão, a luz que se filtra por ele, o momento exato em que alguém decide se esconder ou se revelar. É sobre a pausa antes da caneta tocar o papel.
Guardei o caderno quando a luz começou a falhar. Amanhã, talvez, a mulher esqueça de fechar as cortinas. Ou talvez eu esqueça de olhar.
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