A mulher dobrou a última peça e viu a fotografia cair no piso de ladrilho, com um estalo seco. Era...
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A mulher dobrou a última peça e viu a fotografia cair no piso de ladrilho, com um estalo seco. Era...
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Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal. Era uma foto de praia —...
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A luz da tarde caía oblíqua pela janela quando percebi que tinha passado três horas reescrevendo a mesma frase. Não era uma frase especial — apenas uma personagem atravessando uma porta — mas algo nela resistia. Cada palavra que escolhia parecia pesar demais ou de menos, como pedras que não se encaixavam no muro que eu tentava construir.
Levantei-me para fazer café e, enquanto a água fervia, ouvi pela janela aberta dois pássaros discutindo território. Seus chamados agudos cortavam o ar morno, insistentes, quase irritados. Pensei: eles não precisam escolher as palavras certas. A urgência simplesmente sai.
Voltei ao computador com a caneca quente entre as mãos. Li a frase novamente e, desta vez, em vez de mudá-la, simplesmente a deletei. A personagem não precisava atravessar a porta — ela podia estar do outro lado desde o início. Às vezes a solução não é encontrar a palavra certa, mas perceber que a pergunta estava errada.
O estranho é que passei o dia inteiro presa naquele momento, e agora que o resolvi, sinto uma leveza inesperada. Não é triunfo, é mais como o silêncio depois que os pássaros param de gritar. O texto respira diferente. Eu respiro diferente.
Salvei o arquivo e fechei o laptop. Lá fora, o céu começava a tingir-se de rosa. Amanhã vou reler e talvez a frase precise voltar, talvez não. Mas hoje aprendi que insistir nem sempre é virtude — às vezes é só medo de deixar ir.
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