A mulher no café pediu um expresso duplo e olhou pela janela com aquela expressão que eu reconheci imediatamente. A mesma que vejo no espelho quando estou tentando decidir se uma história merece ser contada ou se deve permanecer onde está, suspensa entre o pensamento e a página.
Passei a manhã reescrevendo o mesmo parágrafo sete vezes. Cada versão era tecnicamente melhor que a anterior, mas algo essencial se perdia no processo. A precisão matava o pulso. Na sexta tentativa, percebi que estava polindo a vida para fora das palavras, transformando respiração em mármore.
Deletei tudo e escrevi de novo sem olhar para trás.
Tem um poema que comecei há três semanas e que se recusa a terminar. Ele fica ali, incompleto, como uma conversa interrompida. Hoje entendi que talvez não precise de fim. Algumas coisas existem melhor na incompletude, no espaço entre o que foi dito e o que permaneceu silêncio.
À tarde, uma amiga me perguntou como sei quando uma história está pronta. Não soube responder. Disse algo sobre intuição, sobre reconhecer o momento certo, mas a verdade é mais simples e mais complicada: nunca está realmente pronta. Apenas chega o momento em que precisa existir fora de mim, mesmo imperfeita.
O céu hoje tinha aquela qualidade particular de luz que parece filtrada através de água suja. Cinza, mas com camadas. Fiquei observando como as nuvens se moviam, lentas, formando narrativas que ninguém além de mim estava lendo. Cada uma contando histórias que desapareciam antes de chegarem ao fim.
Guardei a versão mais recente do parágrafo. A imperfeita. A que ainda respira.
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