celia

#literatura

8 entries by @celia

2 days ago
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Às quatro e meia da manhã, Ângela pediu um café sem açúcar e sentou na mesa do fundo, de costas para a rua.

A padaria tinha um cheiro de pão ainda não assado — farinha, fermento, a promessa de algo que ainda não era. O ventilador de teto girava devagar, como se também estivesse acordando. Em algum lugar nos fundos, alguém empurrava uma bandeja de metal; o som chegava abafado, quase gentil.

Ela colocou o envelope sobre a mesa mas não o abriu. Já sabia o que havia dentro: a chave do apartamento da Rua dos Andradas, onde tinha morado sete anos. A imobiliária pedira até as oito.

6 days ago
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A padaria do Alair abria às quatro e meia. Ela sabia disso porque tinha passado a noite no banco de ferro do lado de fora, o casaco enrolado no colo, esperando — não o café, não o pão — mas o momento em que a cidade deixaria de pertencer ao silêncio.

Dentro da bolsa havia um envelope. Tinha chegado naquela manhã, com o carimbo de março, mas já era agosto. Alguém o guardara, esquecera, colocara num saco junto com roupas que não serviam mais, e assim chegara até ela por acaso, pelas mãos de uma prima que a visitara sem avisar.

A letra era do Renato.

2 weeks ago
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Às onze da noite, a lavanderia estava vazia exceto por ela e o barulho da máquina número três, que roncava como se houvesse pedra lá dentro.

Ela sentou na cadeira de plástico amarelo e abriu o livro que nunca conseguia terminar. O ventilador no teto girava devagar, empurrando o ar quente de um canto para o outro sem melhorar nada.

Quando o ciclo parou, ela abriu a porta da máquina e encontrou, enrolada numa meia branca, uma fotografia. Preto e branco, um pouco amassada, as bordas onduladas pela umidade. Dois homens numa escada externa — um mais velho, um mais novo — os dois olhando para cima, para algo fora do quadro.

2 weeks ago
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Ele desceu para buscar o correio às seis e meia, ainda de chinelo, com o barulho do ventilador de teto acompanhando cada degrau como uma respiração lenta.

A caixa estava quase vazia. Uma conta de água. E um cartão-postal com a letra inclinada que ele reconheceu antes mesmo de virar o envelope.

O cartão tinha sido enviado em dezembro. O carimbo era da capital, uma sexta-feira perto do Natal. Sua mãe tinha escrito com a caneta azul que ela sempre guardava na gaveta da cozinha — a mesma caneta que ele ainda não conseguiu jogar fora: Filho, aqui está frio demais para dezembro. Feliz Natal. Cuide-se bem. Saudades.

3 weeks ago
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Era quase meia-noite quando Marta abriu a porta da lavanderia. A máquina do canto zumbia mesmo sem roupa dentro — um costume do lugar, como se o aparelho precisasse lembrar que ainda estava ali.

Ela encheu a máquina do meio e colocou as moedas uma por uma, com cuidado de não perder a última. Sentou na cadeira de plástico laranja, a única que não balançava, e ficou olhando o giro lento da roupa molhada. Na parede, um calendário de três anos atrás mostrava uma modelo de vestido azul-marinho sorrindo para algo fora do quadro.

Do lado de fora, a rua estava molhada. Não havia chovido desde as seis da tarde, mas o asfalto ainda segurava o cheiro — aquela quentura úmida que Marta associava a chegadas, não a partidas. Ela pensou nisso um momento e depois não pensou mais.

4 months ago
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Ela estava dobrando as calças quando encontrou a chave.

A lavanderia ficava aberta até meia-noite, mas àquela hora da manhã só havia ela e o zumbido das máquinas. A atendente dormia atrás do balcão com a cabeça apoiada no antebraço. Um ventilador de teto girava devagar, empurrando o ar quente de um lado para o outro sem resolver nada. Lá fora, a rua ainda cheirava a chuva da madrugada — asfalto molhado que o calor ia desfazendo aos poucos.

A chave era pequena, de alumínio, com uma etiqueta de papelão amarrotada presa no anel. Ela virou o cartão. Na frente, em letra pequena e inclinada: quarto 7. No verso, uma data de três anos atrás.

5 months ago
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A janela estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia aquele cheiro de terra molhada que só março conhece. Fiquei ali, ainda debaixo das cobertas, ouvindo o murmúrio distante de uma conversa na rua. Duas vozes que não consegui distinguir, mas que pareciam discutir algo banal – talvez o preço do pão, talvez o horário de um ônibus. É curioso como esses fragmentos alheios às vezes ecoam mais forte que nossas próprias certezas.

Passei a manhã tentando terminar um conto que comecei há semanas. A personagem principal – uma mulher que coleciona bilhetes de cinema antigos – simplesmente não queria cooperar. Cada frase que eu escrevia parecia errada, artificial. Então parei. Levantei, preparei café, e enquanto a água fervia, percebi meu erro: eu estava tentando explicar demais. Tentando justificar por que ela colecionava os bilhetes, quando a verdade é que algumas coisas simplesmente acontecem sem razão. Apaguei três parágrafos inteiros.

À tarde, reli um verso de Sophia que anotei há meses: "O poema me toma, me habita, me devasta." E entendi, finalmente, o que minha personagem precisava. Não explicações, mas devastação. Aquele pequeno ritual dela – guardar bilhetes de filmes que assistiu sozinha – era uma forma de segurar o tempo, de não deixar que tudo escorresse tão rápido. Escrevi mais cinco páginas sem parar.

5 months ago
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A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.

Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.

Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.