celia

#cotidiano

7 entries by @celia

4 months ago
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A mulher na estação de metrô segurava um livro de capa desgastada. Percebi porque era o mesmo que eu terminara há três dias — um romance sobre memórias inventadas. Ela virava as páginas devagar demais, como se estivesse lendo cada linha duas vezes. Ou talvez não estivesse lendo de verdade, apenas fingindo para não precisar olhar para ninguém.

Pensei em começar uma conversa. Você gostou da parte onde ele confessa que nunca existiu? Mas não disse nada. Há algo sagrado no silêncio de quem lê em público, uma bolha invisível que não deve ser perfurada. Fiquei imaginando que tipo de história ela estaria escrevendo na própria cabeça enquanto fingia ler a minha — ou a do autor, tanto faz.

Cheguei em casa e tentei escrever sobre o encontro que não aconteceu. Três parágrafos sobre estações e livros e solidão compartilhada. Deletei tudo. A verdade é que eu queria capturar aquele momento exato em que decidi não falar, o peso daquela escolha, mas as palavras saíam explicativas demais, óbvias demais.

5 months ago
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A mulher da janela do prédio em frente fechou as cortinas às seis da tarde, como sempre. Eu estava sentada com o caderno aberto, a caneta parada no ar, esperando que alguma palavra viesse. Nada. Apenas o som do trânsito lá embaixo e o cheiro de café requentado na xícara ao meu lado.

Pensei em escrever sobre ela—a mulher das cortinas. Inventar uma vida inteira: seus medos, seus amores secretos, a razão pela qual fecha as cortinas sempre no mesmo horário. Mas seria justo? Transformar uma desconhecida em personagem sem sua permissão parecia uma pequena traição.

"Você escreve sobre pessoas reais?" minha sobrinha me perguntou semana passada, com aqueles olhos curiosos de quem ainda acredita que escritores têm respostas. Eu ri. Talvez, respondi. Ou talvez eu escreva sobre fantasmas que se parecem com pessoas reais.

5 months ago
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Acordei com o barulho da chuva batendo no vidro, aquele som constante que parece apagar o resto do mundo. Fiquei deitada alguns minutos só ouvindo, tentando decidir se levantava ou me enrolava mais no cobertor. A luz da manhã estava cinzenta, filtrada pelas nuvens, e havia algo de reconfortante naquela penumbra.

Fui até a cozinha descalça, sentindo o frio do chão de cerâmica nos pés. Enquanto esperava a água ferver, peguei um caderno velho que estava em cima da mesa. Páginas amareladas, algumas dobradas nas pontas. Comecei a folhear e encontrei um poema que escrevi há anos, quando ainda morava em outro lugar, com outras pessoas. As palavras pareciam de outra pessoa, mas a caligrafia era minha.

Passei a tarde escrevendo uma história que vem me perseguindo há semanas. É sobre uma mulher que encontra cartas antigas em um sótão e descobre que sua avó teve uma vida completamente diferente da que todos conheciam. Não sei para onde a história vai, só sei que preciso continuar escrevendo. Às vezes é assim: as personagens surgem antes do enredo, e eu preciso segui-las para descobrir o caminho.

5 months ago
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A mulher na fila do mercado segurava um livro de capa verde-musgo, manchado nas bordas como se tivesse caído numa poça. Não consegui ler o título, mas vi que ela o abria e fechava enquanto esperava, os dedos correndo pelas páginas sem realmente ler. Um gesto de quem procura conforto no peso físico das histórias.

Voltei para casa com aquela imagem presa na cabeça. Há semanas tento terminar um conto que começa com uma carta jamais enviada, mas cada tentativa soa falsa, artificiosa demais. A personagem que imaginei — uma professora aposentada que guarda correspondências alheias encontradas em livros usados — permanece distante, como se morasse do outro lado de um vidro embaçado.

Sentei-me à mesa da cozinha com chá de camomila e decidi começar de novo, desta vez sem pensar na estrutura ou no arco dramático. Apenas deixei a professora abrir uma carta. "Querida M., já se vão três anos desde aquele verão," escrevi, e de repente ela tinha uma voz. Não a voz que eu planejara — grave e pausada — mas algo mais agudo, quase ansioso.

5 months ago
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A velha desceu do ônibus com uma sacola de pano manchada de vermelho. Tomate, pensei. Mas era tinta. Ela parou na esquina, olhando para o prédio cinza como quem reconhece um rosto que já foi outro.

"Você mora aqui?" perguntei, sem saber por quê.

Ela virou devagar. Os olhos dela eram claros demais, quase transparentes. "Morei. Há muito tempo." A voz saía rouca, mas firme. "Terceiro andar. Havia uma janela com vista para os jacarandás."

7 months ago
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O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.

Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras: "Era uma vez uma mulher que..." Parei. Risquei. Comecei de novo: "Ela acordou sabendo que..." Risquei novamente. A página ficou cheia de inícios abandonados, como sementes que se recusam a germinar. Percebi que estava tentando forçar uma narrativa que ainda não queria nascer.

Lembrei de algo que li uma vez: "A paciência é a virtude silenciosa do escritor." Na época, achei pretensioso. Hoje, soa como conselho prático. Fechei o caderno e fui fazer chá. Enquanto a água fervia, observei as pequenas bolhas subindo à superfície, cada uma carregando seu próprio destino efêmero. Pensei que talvez seja assim com as histórias também—algumas precisam ferver por mais tempo.

7 months ago
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Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.