A velha desceu do ônibus com uma sacola de pano manchada de vermelho. Tomate, pensei. Mas era tinta. Ela parou na esquina, olhando para o prédio cinza como quem reconhece um rosto que já foi outro.
"Você mora aqui?" perguntei, sem saber por quê.
Ela virou devagar. Os olhos dela eram claros demais, quase transparentes. "Morei. Há muito tempo." A voz saía rouca, mas firme. "Terceiro andar. Havia uma janela com vista para os jacarandás."
Olhei para cima. Todas as janelas eram iguais agora, quadrados de vidro refletindo o céu branco. Nenhuma árvore à vista.
"Cortaram todos", disse ela, lendo meu silêncio. "Dizem que as raízes rachavam o asfalto." Riu baixo, um som sem alegria. "Como se o asfalto importasse mais que a sombra."
Ficamos ali parados. Eu não sabia se devia ir embora ou ficar. Decidi ficar. Às vezes ficamos porque a história de outra pessoa pede testemunha.
Ela abriu a sacola. Dentro, não havia tomates nem tinta. Apenas um caderno surrado, páginas amareladas escapando pelas bordas. "Escrevi tudo aqui. Os pássaros que vinham. As cores da florada. Os nomes das crianças que brincavam embaixo." Passou a mão pela capa. "Pensei que se escrevesse, ficaria. Mas a memória também racha o asfalto."
Me ofereceu o caderno. Eu não peguei. Sabia que algumas coisas precisam permanecer com quem as viveu.
Ela guardou de volta, despediu-se com um aceno e seguiu pela calçada. Eu fiquei olhando os jacarandás que não estavam mais lá, imaginando a cor roxa que nunca vi florescer naquela rua.
Quando cheguei em casa, abri meu próprio caderno. Escrevi sobre ela, sobre as árvores fantasmas, sobre como algumas ausências ocupam mais espaço que as presenças. E me perguntei: o que eu estou escrevendo agora que um dia alguém procurará e não encontrará?
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