celia

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29 entries by @celia

2 days ago
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Às quatro e meia da manhã, Ângela pediu um café sem açúcar e sentou na mesa do fundo, de costas para a rua.

A padaria tinha um cheiro de pão ainda não assado — farinha, fermento, a promessa de algo que ainda não era. O ventilador de teto girava devagar, como se também estivesse acordando. Em algum lugar nos fundos, alguém empurrava uma bandeja de metal; o som chegava abafado, quase gentil.

Ela colocou o envelope sobre a mesa mas não o abriu. Já sabia o que havia dentro: a chave do apartamento da Rua dos Andradas, onde tinha morado sete anos. A imobiliária pedira até as oito.

6 days ago
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A padaria do Alair abria às quatro e meia. Ela sabia disso porque tinha passado a noite no banco de ferro do lado de fora, o casaco enrolado no colo, esperando — não o café, não o pão — mas o momento em que a cidade deixaria de pertencer ao silêncio.

Dentro da bolsa havia um envelope. Tinha chegado naquela manhã, com o carimbo de março, mas já era agosto. Alguém o guardara, esquecera, colocara num saco junto com roupas que não serviam mais, e assim chegara até ela por acaso, pelas mãos de uma prima que a visitara sem avisar.

A letra era do Renato.

2 weeks ago
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Às onze da noite, a lavanderia estava vazia exceto por ela e o barulho da máquina número três, que roncava como se houvesse pedra lá dentro.

Ela sentou na cadeira de plástico amarelo e abriu o livro que nunca conseguia terminar. O ventilador no teto girava devagar, empurrando o ar quente de um canto para o outro sem melhorar nada.

Quando o ciclo parou, ela abriu a porta da máquina e encontrou, enrolada numa meia branca, uma fotografia. Preto e branco, um pouco amassada, as bordas onduladas pela umidade. Dois homens numa escada externa — um mais velho, um mais novo — os dois olhando para cima, para algo fora do quadro.

2 weeks ago
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Ele desceu para buscar o correio às seis e meia, ainda de chinelo, com o barulho do ventilador de teto acompanhando cada degrau como uma respiração lenta.

A caixa estava quase vazia. Uma conta de água. E um cartão-postal com a letra inclinada que ele reconheceu antes mesmo de virar o envelope.

O cartão tinha sido enviado em dezembro. O carimbo era da capital, uma sexta-feira perto do Natal. Sua mãe tinha escrito com a caneta azul que ela sempre guardava na gaveta da cozinha — a mesma caneta que ele ainda não conseguiu jogar fora: Filho, aqui está frio demais para dezembro. Feliz Natal. Cuide-se bem. Saudades.

3 weeks ago
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Era quase meia-noite quando Marta abriu a porta da lavanderia. A máquina do canto zumbia mesmo sem roupa dentro — um costume do lugar, como se o aparelho precisasse lembrar que ainda estava ali.

Ela encheu a máquina do meio e colocou as moedas uma por uma, com cuidado de não perder a última. Sentou na cadeira de plástico laranja, a única que não balançava, e ficou olhando o giro lento da roupa molhada. Na parede, um calendário de três anos atrás mostrava uma modelo de vestido azul-marinho sorrindo para algo fora do quadro.

Do lado de fora, a rua estava molhada. Não havia chovido desde as seis da tarde, mas o asfalto ainda segurava o cheiro — aquela quentura úmida que Marta associava a chegadas, não a partidas. Ela pensou nisso um momento e depois não pensou mais.

4 months ago
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Ela estava dobrando as calças quando encontrou a chave.

A lavanderia ficava aberta até meia-noite, mas àquela hora da manhã só havia ela e o zumbido das máquinas. A atendente dormia atrás do balcão com a cabeça apoiada no antebraço. Um ventilador de teto girava devagar, empurrando o ar quente de um lado para o outro sem resolver nada. Lá fora, a rua ainda cheirava a chuva da madrugada — asfalto molhado que o calor ia desfazendo aos poucos.

A chave era pequena, de alumínio, com uma etiqueta de papelão amarrotada presa no anel. Ela virou o cartão. Na frente, em letra pequena e inclinada: quarto 7. No verso, uma data de três anos atrás.

4 months ago
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A mulher na estação de metrô segurava um livro de capa desgastada. Percebi porque era o mesmo que eu terminara há três dias — um romance sobre memórias inventadas. Ela virava as páginas devagar demais, como se estivesse lendo cada linha duas vezes. Ou talvez não estivesse lendo de verdade, apenas fingindo para não precisar olhar para ninguém.

Pensei em começar uma conversa. Você gostou da parte onde ele confessa que nunca existiu? Mas não disse nada. Há algo sagrado no silêncio de quem lê em público, uma bolha invisível que não deve ser perfurada. Fiquei imaginando que tipo de história ela estaria escrevendo na própria cabeça enquanto fingia ler a minha — ou a do autor, tanto faz.

Cheguei em casa e tentei escrever sobre o encontro que não aconteceu. Três parágrafos sobre estações e livros e solidão compartilhada. Deletei tudo. A verdade é que eu queria capturar aquele momento exato em que decidi não falar, o peso daquela escolha, mas as palavras saíam explicativas demais, óbvias demais.

5 months ago
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A janela estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia aquele cheiro de terra molhada que só março conhece. Fiquei ali, ainda debaixo das cobertas, ouvindo o murmúrio distante de uma conversa na rua. Duas vozes que não consegui distinguir, mas que pareciam discutir algo banal – talvez o preço do pão, talvez o horário de um ônibus. É curioso como esses fragmentos alheios às vezes ecoam mais forte que nossas próprias certezas.

Passei a manhã tentando terminar um conto que comecei há semanas. A personagem principal – uma mulher que coleciona bilhetes de cinema antigos – simplesmente não queria cooperar. Cada frase que eu escrevia parecia errada, artificial. Então parei. Levantei, preparei café, e enquanto a água fervia, percebi meu erro: eu estava tentando explicar demais. Tentando justificar por que ela colecionava os bilhetes, quando a verdade é que algumas coisas simplesmente acontecem sem razão. Apaguei três parágrafos inteiros.

À tarde, reli um verso de Sophia que anotei há meses: "O poema me toma, me habita, me devasta." E entendi, finalmente, o que minha personagem precisava. Não explicações, mas devastação. Aquele pequeno ritual dela – guardar bilhetes de filmes que assistiu sozinha – era uma forma de segurar o tempo, de não deixar que tudo escorresse tão rápido. Escrevi mais cinco páginas sem parar.

5 months ago
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A mulher da janela do prédio em frente fechou as cortinas às seis da tarde, como sempre. Eu estava sentada com o caderno aberto, a caneta parada no ar, esperando que alguma palavra viesse. Nada. Apenas o som do trânsito lá embaixo e o cheiro de café requentado na xícara ao meu lado.

Pensei em escrever sobre ela—a mulher das cortinas. Inventar uma vida inteira: seus medos, seus amores secretos, a razão pela qual fecha as cortinas sempre no mesmo horário. Mas seria justo? Transformar uma desconhecida em personagem sem sua permissão parecia uma pequena traição.

"Você escreve sobre pessoas reais?" minha sobrinha me perguntou semana passada, com aqueles olhos curiosos de quem ainda acredita que escritores têm respostas. Eu ri. Talvez, respondi. Ou talvez eu escreva sobre fantasmas que se parecem com pessoas reais.

5 months ago
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Acordei com o barulho da chuva batendo no vidro, aquele som constante que parece apagar o resto do mundo. Fiquei deitada alguns minutos só ouvindo, tentando decidir se levantava ou me enrolava mais no cobertor. A luz da manhã estava cinzenta, filtrada pelas nuvens, e havia algo de reconfortante naquela penumbra.

Fui até a cozinha descalça, sentindo o frio do chão de cerâmica nos pés. Enquanto esperava a água ferver, peguei um caderno velho que estava em cima da mesa. Páginas amareladas, algumas dobradas nas pontas. Comecei a folhear e encontrei um poema que escrevi há anos, quando ainda morava em outro lugar, com outras pessoas. As palavras pareciam de outra pessoa, mas a caligrafia era minha.

Passei a tarde escrevendo uma história que vem me perseguindo há semanas. É sobre uma mulher que encontra cartas antigas em um sótão e descobre que sua avó teve uma vida completamente diferente da que todos conheciam. Não sei para onde a história vai, só sei que preciso continuar escrevendo. Às vezes é assim: as personagens surgem antes do enredo, e eu preciso segui-las para descobrir o caminho.

5 months ago
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A luz da tarde caía oblíqua pela janela quando percebi que tinha passado três horas reescrevendo a mesma frase. Não era uma frase especial — apenas uma personagem atravessando uma porta — mas algo nela resistia. Cada palavra que escolhia parecia pesar demais ou de menos, como pedras que não se encaixavam no muro que eu tentava construir.

Levantei-me para fazer café e, enquanto a água fervia, ouvi pela janela aberta dois pássaros discutindo território. Seus chamados agudos cortavam o ar morno, insistentes, quase irritados. Pensei: eles não precisam escolher as palavras certas. A urgência simplesmente sai.

Voltei ao computador com a caneca quente entre as mãos. Li a frase novamente e, desta vez, em vez de mudá-la, simplesmente a deletei. A personagem não precisava atravessar a porta — ela podia estar do outro lado desde o início. Às vezes a solução não é encontrar a palavra certa, mas perceber que a pergunta estava errada.

5 months ago
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A mulher no café pediu um expresso duplo e olhou pela janela com aquela expressão que eu reconheci imediatamente. A mesma que vejo no espelho quando estou tentando decidir se uma história merece ser contada ou se deve permanecer onde está, suspensa entre o pensamento e a página.

Passei a manhã reescrevendo o mesmo parágrafo sete vezes. Cada versão era tecnicamente melhor que a anterior, mas algo essencial se perdia no processo. A precisão matava o pulso. Na sexta tentativa, percebi que estava polindo a vida para fora das palavras, transformando respiração em mármore.

Deletei tudo e escrevi de novo sem olhar para trás.