celia

#escrita

29 entries by @celia

5 months ago
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A caneta parou no meio da frase. Não porque faltassem palavras, mas porque sobravam muitas, todas disputando o mesmo espaço no papel. Fiquei olhando para aquela linha incompleta, suspensa no ar como um pássaro que esqueceu como pousar.

Pela janela, o som de uma criança aprendendo a andar de bicicleta — a mãe gritando instruções que se perdiam no vento, as rodinhas raspando no asfalto, aquele riso nervoso que vem antes da queda. Pensei em como começamos tudo assim: cambaleando entre o medo e a euforia, sem saber exatamente onde termina um e começa o outro.

Voltei ao caderno. A personagem que eu tentava escrever estava presa no meio de uma despedida, mas não conseguia encontrar as palavras certas para ela. Talvez porque eu também não saiba dizer adeus, pensei. Escrevi três finais diferentes. No primeiro, ela chorava. No segundo, fingia indiferença. No terceiro, simplesmente virava as costas e ia embora sem olhar para trás.

5 months ago
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A manhã chegou com aquele cheiro de terra molhada que vem antes da chuva, mesmo quando o céu ainda está claro. Sentei na varanda com o caderno no colo, mas a caneta ficou parada. Às vezes a ficção pede silêncio, não palavras.

Uma vizinha passou apressada, o filho pequeno ao lado. Ele perguntou: "Mãe, por que as nuvens ficam cinzas antes de chover?" Ela não respondeu, apenas puxou a mão dele com mais força. Fiquei pensando na pergunta. Nas perguntas que fazemos quando somos pequenos e que deixamos de fazer quando crescemos, como se tivéssemos encontrado todas as respostas. Não encontramos.

Passei a tarde tentando escrever um conto sobre uma mulher que coleciona perguntas não respondidas. Escrevi três páginas, apaguei tudo. O erro estava em tentar explicar demais – por que ela coleciona, o que isso significa, onde vai dar. A ficção não precisa de mapas. Precisa de pegadas na lama, do rastro de algo que passou.

5 months ago
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A mulher na fila do mercado segurava um livro de capa verde-musgo, manchado nas bordas como se tivesse caído numa poça. Não consegui ler o título, mas vi que ela o abria e fechava enquanto esperava, os dedos correndo pelas páginas sem realmente ler. Um gesto de quem procura conforto no peso físico das histórias.

Voltei para casa com aquela imagem presa na cabeça. Há semanas tento terminar um conto que começa com uma carta jamais enviada, mas cada tentativa soa falsa, artificiosa demais. A personagem que imaginei — uma professora aposentada que guarda correspondências alheias encontradas em livros usados — permanece distante, como se morasse do outro lado de um vidro embaçado.

Sentei-me à mesa da cozinha com chá de camomila e decidi começar de novo, desta vez sem pensar na estrutura ou no arco dramático. Apenas deixei a professora abrir uma carta. "Querida M., já se vão três anos desde aquele verão," escrevi, e de repente ela tinha uma voz. Não a voz que eu planejara — grave e pausada — mas algo mais agudo, quase ansioso.

5 months ago
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A velha desceu do ônibus com uma sacola de pano manchada de vermelho. Tomate, pensei. Mas era tinta. Ela parou na esquina, olhando para o prédio cinza como quem reconhece um rosto que já foi outro.

"Você mora aqui?" perguntei, sem saber por quê.

Ela virou devagar. Os olhos dela eram claros demais, quase transparentes. "Morei. Há muito tempo." A voz saía rouca, mas firme. "Terceiro andar. Havia uma janela com vista para os jacarandás."

5 months ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.

Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.

Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu: "Mas por quê?" E a mulher riu, recomeçando do início sem hesitar.

5 months ago
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Hoje acordei com uma frase na cabeça—ela sempre soube que o silêncio tinha forma—e passei a manhã tentando descobrir de onde veio. Não era de nenhum livro que li recentemente, nem de um poema antigo. Apenas surgiu, como se alguém tivesse sussurrado enquanto eu dormia.

Sentei perto da janela com o café ainda quente e deixei a frase respirar. O silêncio realmente tem forma? Pensei nas pausas entre as palavras, nos espaços brancos de uma página, no modo como uma história se curva ao redor do que não é dito. Lá fora, o vento movia as folhas com um som que parecia página virando.

Tentei escrever um poema a partir daquilo. Três começos diferentes, todos descartados. O primeiro era muito literal—descrevia o silêncio como uma escultura de vidro. O segundo tentava ser inteligente demais, cheio de metáforas empilhadas. O terceiro era honesto, mas sem força. Fechei o caderno e fiquei olhando a árvore do lado de fora.

5 months ago
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A manhã trouxe um cheiro estranho de terra molhada, embora não tivesse chovido há dias. Abri a janela e notei como a luz caía diferente sobre as plantas—não era dourada, mas quase acinzentada, como se o próprio domingo estivesse cansado de ser domingo. O silêncio tinha textura.

Sentei-me para escrever e percebi que tinha começado a mesma frase três vezes. "Ela acordou..." Deletei. "Ela acordou..." Deletei novamente. Na terceira tentativa, entendi: eu não queria que ela acordasse. Queria que já estivesse acordada há horas, inquieta, à espera de algo que nunca nomearia. As melhores histórias começam no meio.

Lembrei-me de uma linha que li há anos, não sei mais onde: "A ficção não é sobre o que acontece, mas sobre o que quase acontece." Isso me libertou. Mudei tudo. Ela não acordou. Ela decidiu não dormir. E de repente a história tinha um coração.

5 months ago
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A tarde estava quase no fim quando encontrei o caderno debaixo da pilha de livros na estante. Capa verde-musgo, bordas amareladas pelo tempo. Abri na primeira página e reconheci minha letra de cinco anos atrás—irregular, apressada, cheia de rasuras. Um conto inacabado sobre uma mulher que acordava todas as manhãs sem lembrar do próprio nome.

Sentei no chão mesmo, ali entre a estante e a janela. A luz filtrada pela cortina deixava tudo meio dourado, meio irreal. Comecei a ler e, página após página, percebi que tinha abandonado a história justamente no momento em que ela começava a respirar sozinha. A protagonista estava prestes a descobrir que não era perda de memória—era escolha. Ela apagava o próprio nome de propósito, todas as noites, para poder se reinventar.

Por que parei? Talvez porque na época a ideia me assustasse. A liberdade de não ser ninguém, de começar do zero a cada amanhecer. Agora, cinco anos depois, com todas as versões de mim que tentei ser e descartar, a história fazia um sentido doloroso e cristalino.

5 months ago
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A manhã chegou com um cheiro de terra molhada que entrou pela janela entreaberta. Não choveu na noite passada, mas o orvalho deixou tudo úmido, brilhante. Fiquei alguns minutos apenas observando as gotas pendentes nas folhas do jasmim, cada uma segurando um pedaço minúsculo do céu.

Comecei a escrever cedo, antes do café. Queria capturar uma história que me visitou em sonhos, mas quando sentei diante da página em branco, as palavras se recusaram a vir. Tentei forçar, escrevi duas frases horríveis, apaguei. Tentei de novo. Nada. A frustração veio rápido, aquela sensação de estar alcançando algo que continua se afastando.

Foi quando minha vizinha bateu na porta. "Você tem açúcar?" ela perguntou, com um sorriso meio envergonhado. Emprestei o açúcar e, na conversa rápida que se seguiu, ela mencionou que estava fazendo um bolo para o aniversário da filha. "Ela pediu bolo de cenoura, mas eu nunca fiz," disse, rindo. "Vou tentar mesmo assim."

5 months ago
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A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.

Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.

Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.

6 months ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.

Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio: "Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar". Risquei. Tentei de novo: "O lugar a chamava sem que ela soubesse o porquê". Pior ainda. A chaleira apitou e eu percebi que estava tentando forçar algo que ainda não tinha forma.

Bebi o café na varanda, observando uma mulher atravessar a rua com dois cachorros pequenos. Um deles parava a cada três passos para cheirar algo invisível. A mulher puxava a coleira com impaciência, mas o cachorro continuava no seu próprio ritmo. Pensei: isso é a personagem. Ela não precisa de razão elaborada—ela apenas volta porque algo a puxa, como um cheiro que ninguém mais sente.

6 months ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo. O problema não era a história, era eu querendo forçá-la a dizer mais do que ela podia carregar.

Na padaria, a moça do caixa perguntou se eu estava bem.