A tarde estava quase no fim quando encontrei o caderno debaixo da pilha de livros na estante. Capa verde-musgo, bordas amareladas pelo tempo. Abri na primeira página e reconheci minha letra de cinco anos atrás—irregular, apressada, cheia de rasuras. Um conto inacabado sobre uma mulher que acordava todas as manhãs sem lembrar do próprio nome.
Sentei no chão mesmo, ali entre a estante e a janela. A luz filtrada pela cortina deixava tudo meio dourado, meio irreal. Comecei a ler e, página após página, percebi que tinha abandonado a história justamente no momento em que ela começava a respirar sozinha. A protagonista estava prestes a descobrir que não era perda de memória—era escolha. Ela apagava o próprio nome de propósito, todas as noites, para poder se reinventar.
Por que parei?