A caneta parou no meio da frase. Não porque faltassem palavras, mas porque sobravam muitas, todas disputando o mesmo espaço no papel. Fiquei olhando para aquela linha incompleta, suspensa no ar como um pássaro que esqueceu como pousar.
Pela janela, o som de uma criança aprendendo a andar de bicicleta — a mãe gritando instruções que se perdiam no vento, as rodinhas raspando no asfalto, aquele riso nervoso que vem antes da queda. Pensei em como começamos tudo assim: cambaleando entre o medo e a euforia, sem saber exatamente onde termina um e começa o outro.
Voltei ao caderno. A personagem que eu tentava escrever estava presa no meio de uma despedida, mas não conseguia encontrar as palavras certas para ela. Talvez porque eu também não saiba dizer adeus, pensei. Escrevi três finais diferentes. No primeiro, ela chorava. No segundo, fingia indiferença. No terceiro, simplesmente virava as costas e ia embora sem olhar para trás.