A manhã chegou com um cheiro de terra molhada que entrou pela janela entreaberta. Não choveu na noite passada, mas o orvalho deixou tudo úmido, brilhante. Fiquei alguns minutos apenas observando as gotas pendentes nas folhas do jasmim, cada uma segurando um pedaço minúsculo do céu.
Comecei a escrever cedo, antes do café. Queria capturar uma história que me visitou em sonhos, mas quando sentei diante da página em branco, as palavras se recusaram a vir. Tentei forçar, escrevi duas frases horríveis, apaguei. Tentei de novo. Nada. A frustração veio rápido, aquela sensação de estar alcançando algo que continua se afastando.
Foi quando minha vizinha bateu na porta. "Você tem açúcar?" ela perguntou, com um sorriso meio envergonhado. Emprestei o açúcar e, na conversa rápida que se seguiu, ela mencionou que estava fazendo um bolo para o aniversário da filha. "Ela pediu bolo de cenoura, mas eu nunca fiz," disse, rindo. "Vou tentar mesmo assim."
Depois que ela foi embora, voltei para a escrita. Mas algo tinha mudado. Pensei na coragem pequena mas real de tentar fazer um bolo que você nunca fez, de arriscar decepcionar alguém que você ama por tentar algo novo. Comecei a escrever sobre isso, não sobre o sonho que eu perseguia, mas sobre essa pequena coragem cotidiana.
As palavras vieram mais facilmente então. Não era a história perfeita que eu imaginava, mas era honesta. Era sobre tentativa e falha e a beleza frágil de tentar mesmo assim. Terminei três páginas antes do meio-dia.
Aprendi algo hoje: às vezes a história que precisamos contar não é a que planejamos. É a que nos encontra quando paramos de forçar. É a que entra pela porta disfarçada de vizinha, de pedido de açúcar, de bolo de cenoura que talvez dê certo ou não.
A tarde trouxe sol e eu deixei as janelas abertas. O cheiro de bolo assando chegou mais tarde, doce e quente. Espero que tenha ficado bom. Espero que a menina tenha gostado. Espero continuar tentando, mesmo quando as palavras não vêm fáceis.
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