Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.
Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio: "Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar". Risquei. Tentei de novo: "O lugar a chamava sem que ela soubesse o porquê". Pior ainda. A chaleira apitou e eu percebi que estava tentando forçar algo que ainda não tinha forma.
Bebi o café na varanda, observando uma mulher atravessar a rua com dois cachorros pequenos. Um deles parava a cada três passos para cheirar algo invisível. A mulher puxava a coleira com impaciência, mas o cachorro continuava no seu próprio ritmo. Pensei: isso é a personagem. Ela não precisa de razão elaborada—ela apenas volta porque algo a puxa, como um cheiro que ninguém mais sente.
Voltei para a escrita com essa imagem. Três parágrafos depois, ela finalmente se moveu. Não por decisão heroica ou revelação dramática, mas porque deixei de exigir que ela me explicasse tudo. Às vezes a melhor ficção é aquela que reconhece o inexplicável, que deixa espaço para o mistério respirar.
Guardei o caderno quando percebi que tinha passado duas horas sem levantar os olhos. A luz da manhã já tinha mudado—agora era aquele branco forte do meio-dia. Minha personagem finalmente tinha atravessado a cena, e eu tinha aprendido a parar de puxar a coleira.
Amanhã vou tentar lembrar disso: nem tudo precisa ser desvendado. Algumas coisas existem melhor quando deixamos que permaneçam um pouco opacas, um pouco fora de alcance.
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