A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.
Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.
Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.
Escrevi três páginas sem parar. A caneta começou a falhar na segunda página e continuei assim mesmo, as palavras ficando cada vez mais tênues no papel. Quando terminei, reli tudo e senti aquele aperto no peito — o bom, o que significa que toquei em algo verdadeiro.
Mais tarde, quando voltei para revisar, hesitei antes de mudar qualquer coisa. As palavras meio apagadas na segunda página criavam um efeito não intencional, mas perfeito. Como se o próprio texto começasse a desaparecer junto com a personagem.
Às vezes o erro é o caminho, pensei.
A chaleira já estava fria quando lembrei do chá. Não importava. Tinha encontrado o que estava procurando, e não era nas folhas secas dentro do armário.
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